Cidade Nossa

Crônica: calça desbotada, uma saia ou coisa assim

Éramos poucas jornalistas chegando às redações, no começo dos anos 1970. Nosso professor na universidade, Vilela Magalhães, então chefe de redação, sempre nos corrigia: aqui não sou professor

REV-2303-CRONICA -  (crédito: Maurenilson Freire)
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REV-2303-CRONICA - (crédito: Maurenilson Freire)

Por Eliana Lucena - Especial para o Correio

A presença de mulheres jornalistas nas redações de Brasília ainda era rara no final dos anos 1960. Os estágios obrigatórios para final de curso nas universidades abriram portas para um mundo novo e desafiador. No meu caso, que morava em um dos prédios da Colina, na Universidade de Brasília, seria o primeiro contato com a cidade, além do câmpus. Antes, uma vez por semana, o velho ônibus Ziriguidum, e depois o Amarelinho, pegava os alunos doidos por cinema na UnB deixando-nos na Escola Parque para as sessões do cine clube. À meia-noite, espalhados pelos restaurantes e bares em torno da 108 Sul, era aquela correria para voltar até o ponto de encontro. Quem não chegava voltava a pé até a Asa Norte. Mesmo divertida, era longa a caminhada.

REV-2303-CRONICA
REV-2303-CRONICA (foto: Maurenilson Freire)

O segundo encontro foi com a Brasília real, por meio de pautas do jornal. Pude conhecer famílias que vieram para cá com a construção da cidade; candangos que construíram a nova capital, autoridades do governo militar e políticos. O jornal Última Hora, do Samuel Weiner, enfrentava com garra as retaliações do governo do general Garrastazu Médici.

Mesmo naquela época cinzenta para a UnB, com as invasões, prisão e desaparecimento de líderes estudantis e a sensação constante de insegurança, o jornalismo desvendou um novo mundo fascinante. Como jovem rebelde que deixou Belo Horizonte para se aventurar no Planalto Central, cheguei com poucas roupas na mala: duas calças Lee e camisas feitas pela costureira da família mineira. Com as pautas do jornal, algumas em locais onde não se permitia a entrada de mulher usando calças compridas, acrescentei no guarda-roupa uma saia. Ficava na gaveta da redação.

O acolhimento pelos colegas mais antigos nos jornais foi algo inesquecível. Na Última Hora, o diretor Nuevo Baby, antecipava os vales para nossos gastos básicos, que eram poucos: comida no bandejão da UnB, e ônibus até a rodoviária com o famoso pastel e caldo de cana da Pastelaria Viçosa, nosso luxo.

Assim como ocorreu na UH Brasília, o segundo estágio em O Estado de São Paulo foi cheio de aprendizado. Éramos poucas jornalistas chegando às redações, no começo dos anos 1970. Fui pelas mãos da Rosângela Bittar, que já estagiava na sucursal. Nosso professor na universidade, Vilela Magalhães, então chefe de redação, sempre nos corrigia: aqui não sou professor.

Nossos rumos no jornalismo foram se definindo. Na cobertura do antigo Ministério do Interior, ampliei de fato a brasilidade para além das montanhas de Minas. Na universidade, foram sotaques, comidas regionais e sonhos dos que chegavam de todos os cantos. Mas o começo das viagens para todo o país mudou conceitos, preconceitos e sonhos. Viagens que permitiram conhecer muitas etnias indígenas, sertanistas, missionários. Junto, os órgãos desenvolvimentistas e os estragos que estavam permitindo em nome de um desenvolvimento a toque de caixa. 

Migrando para áreas de cobertura longe da Esplanada dos Ministérios, a saia da UH Brasília continuou na gaveta. No Estadão, entrou um novo componente para as viagens pela floresta, pequenos povoados e áreas indígenas. Uma rede, que ficava trancada no armário da Administração. Uma linda rede branca de casal, ou de matrimônio, como dizia, com sotaque suíço, um antropólogo que veio conhecer os indígenas Kamayurá, do Xingu.

Como explicar que uma das vezes a rede foi reivindicada por um grupo de indígenas que não falavam português, em tempos de conflito, no meio da noite? Ele também não se conformava com a compra de gasolina para o barco, muitas vezes sem o recibo, usado para o transporte de indígenas e comunidades visitadas, além de outras despesas complicadas de justificar nas prestação de contas.

Com o processo de abertura política do país, as longas pautas envolvendo meio ambiente, povos indígenas, seringueiros, entre outras, foram escasseando. Muito dinheiro despendido para fretar aviões, estadias longas, às vezes, de até um mês. Os olhares se voltavam novamente para os grandes temas políticos e econômicos, em fase de grandes mudanças. 

Eliana Lucena é jornalista

 

Correio Braziliense
postado em 23/03/2025 06:00