
Em uma entrevista exclusiva ao Correio, o ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência Moreira Franco relembrou os bastidores da transição política de 1985, um dos momentos mais delicados da história recente do Brasil. Moreira Franco foi uma das figuras-chave desse período e testemunhou de perto os desafios da transição democrática. Ele fala sobre como a vitória de Tancredo Neves foi recebida dentro do Partido Democrático Social (PDS), partido que sustentava o regime militar, e como a saída de José Sarney da legenda para compor a chapa com Tancredo gerou reações. A seguir, trechos da entrevista:
O senhor foi uma das principais lideranças do PDS. Como o partido reagiu à vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral?
No PDS, eu fui um dos articuladores da Aliança Liberal, grupo que rompeu com a candidatura de Paulo Maluf para apoiar Tancredo. Dentro do partido, havia uma cisão clara. De um lado, aqueles que defendiam a redemocratização e, do outro, os que resistiam a ela e mantinham apoio ao Maluf.
Houve alguma articulação dentro do PDS ou entre os militares para impedir a posse de Tancredo?
Não. No PDS, não houve nada nesse sentido. O partido passou por uma disputa interna entre Paulo Maluf e Mario Andreazza, e Maluf venceu. Após isso, o foco se voltou para a eleição no colégio eleitoral, que seguiu seu curso normal. O próprio governo militar fez acordos políticos para garantir uma transição segura, e Maluf sabia que não tinha maioria e aceitou o resultado.
Quando José Sarney deixou o PDS para compor a chapa com Tancredo, ele foi visto como um traidor?
A decisão de Sarney gerou reações mistas. Entre os que queriam a redemocratização, sua escolha foi bem recebida. Mas aqueles que apoiavam Maluf viam sua saída com resistência. No entanto, era um movimento inevitável, a candidatura de Maluf não tinha viabilidade no colégio eleitoral, e o próprio governo já articulava composições para garantir a transição.
Caso Tancredo tivesse assumido, o senhor acredita que ele enfrentaria dificuldades com os militares?
Nenhuma. Tancredo sempre manteve uma relação respeitosa com as Forças Armadas, mesmo antes da eleição. A anistia já havia sido aprovada, e o clima era de transição. O maior problema da época não era a resistência política, mas a grave crise econômica que o país enfrentava.
Quando Sarney foi confirmado como presidente, houve resistência dentro das Forças Armadas?
Não. A solução encontrada para a transição foi política e constitucional. O general Leônidas Pires Gonçalves, que assumiu o Ministério do Exército, foi um dos principais garantidores da posse de Sarney e defensor da redemocratização. Não havia clima para qualquer tentativa de reversão do processo democrático.
O general Walter Pires teria cogitado impedir a posse de Sarney. O senhor teve conhecimento disso na época?
Walter Pires era o ministro do Exército no governo Figueiredo. Nunca tive conhecimento de que ele tenha feito qualquer movimentação nesse sentido. A transição já estava consolidada, e havia respaldo político e militar para sua continuidade.
Mesmo derrotado no colégio eleitoral, o PDS continuava sendo um partido forte. Como ele se posicionou nos primeiros meses do governo Sarney?
O partido aceitou o resultado e manteve sua estrutura. A oposição mais firme ao governo Sarney veio do PT, que criticava a forma como a transição foi conduzida.
Sarney assumiu um governo já estruturado por Tancredo. O senhor acredita que ele teve dificuldades para governar sem um núcleo político próprio?
Administrar um governo sem um núcleo político de confiança não é confortável. Sarney herdou um governo montado por Tancredo, e isso naturalmente trouxe desafios. Mas ele era um político experiente e soube navegar nesse ambiente, consolidando alianças ao longo do tempo.
O governo Sarney teve uma identidade própria ou apenas deu continuidade ao projeto de Tancredo?
Todo governo tem sua identidade própria. Sarney não surgiu do nada no cenário político. Ele tinha uma longa trajetória, desde os anos 1950, e soube imprimir seu estilo de governar. A grave crise econômica obrigou Sarney a adotar medidas emergenciais, o que influenciou sua identidade como presidente.
Se Tancredo tivesse assumido, o Brasil teria passado por um processo diferente de redemocratização?
A redemocratização aconteceria do mesmo jeito, mas a política econômica seria completamente diferente. Tancredo conhecia profundamente a máquina do Estado e tinha um perfil desenvolvimentista. Sem dúvida, seu foco seria criar condições para o crescimento econômico.
Quais foram os maiores desafios enfrentados pelo governo nos primeiros anos da Nova República?
O maior desafio foi econômico. A crise da época não era consequência de fatores externos, mas de problemas estruturais internos que se acumulavam há anos. Resolver essa situação exigia medidas urgentes, como os planos de estabilização econômica.
Como o senhor avalia o papel de Sarney na consolidação da democracia brasileira?
Sarney foi fundamental. Ele tinha experiência, paciência e habilidade para administrar conflitos. Seu compromisso era garantir que a transição ocorresse sem rupturas e consolidar a democracia no Brasil. Se tivesse sido outro político no comando, talvez o processo tivesse sido mais turbulento.
O Brasil ainda enfrenta crises cíclicas desde aquele período. Como o senhor enxerga essa questão?
A crise econômica que o Brasil enfrentava nos anos 1980 deixou sequelas profundas, que se refletem até hoje. Desde então, o país alternou momentos de crescimento com recessões severas, sem conseguir consolidar um modelo de desenvolvimento sustentável. Esse atraso impacta diretamente o mercado de trabalho e a estrutura produtiva do Brasil até hoje.