
Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)
Nenhum chefe de governo ameaçou a humanidade de forma tão catastrófica quanto Trump. Os presidentes de países com potencial nuclear representavam ameaça, mas não chegaram a promover hecatombe. Truman usou bombas nucleares assassinando centenas de milhares de civis, em duas cidades. Ao negar os riscos da catástrofe ecológica em marcha, incentivar a produção de petróleo, abandonar o Acordo de Paris e a participação na COP30, Trump pratica a demolição: mudanças climáticas, elevação no nível do mar, desaparecimento de cidades e países, desestruturação da agricultura, extinção em massa de vida e a depredação da civilização. Mas desperta a opinião pública para a realidade da crise mundial.
Quase todos os presidentes praticam em silêncio o que Trump esbraveja. O negacionista americano propaga a mensagem "perfurem, perfurem e extraiam o petróleo onde quiserem". Enquanto o governo do Brasil, que diz ser defensor do meio ambiente, perfura e produz petróleo por sua empresa Petrobras. Os gestos explícitos de Trump têm o valor de desnudar o comportamento de outros presidentes que o criticam, mas fazem o mesmo para atender aos interesses dos eleitores. Trump escancara o desafio de escolher entre as necessidades da humanidade para o futuro e os interesses do eleitorado no presente: a escolha entre decisões que elevarão o nível do mar em todo o planeta ou que elevarão os preços da gasolina na próxima semana, no posto da esquina. Trump é um demolidor da natureza, mas é também o despertador para a percepção da encruzilhada: continuar a marcha do crescimento destruidor do equilíbrio ecológico ou reorientar o processo civilizatório na direção de um desenvolvimento sustentável com a natureza e solidário entre os seres humanos.
A eleição de Trump com voto da maioria dos americanos para depredar a natureza e ameaçar o futuro da humanidade desperta para a contradição entre a democracia e o humanismo. Com seu discurso ambíguo, Obama ofuscava o divórcio entre humanismo e democracia ao dizer que "não há presidente do mundo", cada um deve atender aos interesses de seus eleitores, mas assinar o Acordo de Paris para atender aos interesses da humanidade. Os gestos de Trump mostram os limites da democracia nacional em tempos de integração planetária. Representam a solução populista de curto prazo para atender ao eleitor local de hoje, mas abandonam a preocupação de longo prazo da humanidade.
Ao usar tarifas de importação como armas de guerra comercial para beneficiar a economia americana, Trump, sem querer, mostra que a humanidade terá de reduzir seu nível de consumo. Mostra os limites da globalização das cadeias industriais que, ao comprar alimentos no Brasil, no outro lado do planeta, a China faz a comida mais barata para os chineses, mas ao custo ecológico dos gastos em energia para o transporte de carnes. A produção de automóveis usando cadeia de produção internacional reduz o custo de produção e amplia o consumo, mas com elevados custos ecológicos, tanto ao produzir quanto ao usar o número crescente de automóveis a preços baixos. Esse processo funcionou bem, até que os limites da crise social devido ao desemprego local levassem o eleitor a preferir o nacionalismo de Trump.
Outro despertar graças ao Trump é o incômodo mundial ao perceber-se que os eleitores americanos decidem os destinos da humanidade fechando serviços de saúde na África ou elevando o nível do mar no planeta inteiro. Suas medidas são criticadas porque desequilibram o comércio internacional, as cadeias de produção e o nível dos preços, mas servem para mostrar que o mundo deixou de ser a soma dos países e, agora, cada país passou a ser um pedaço do mundo. A resistência a Trump mostra os limites do poder do nacionalismo isolacionista, mesmo no mais poderoso e rico país.
Ao assumir o ódio aos imigrantes, ele reconhece sem ambiguidade a divisão entre os seres humanos privilegiados e as massas de pobres do mundo. Desperta para o comportamento da população de classe média e rica que age da mesma forma, barrando seus "instrangeiros", imigrantes do próprio país, com muros de condomínios, com o mesmo propósito do muro entre EUA e México — barrados por catracas, impedindo acesso a boas escolas, bons hospitais. Trump é um esbravejador que assume sua maldade e desperta a consciência daqueles que silenciosamente se comportam da mesma forma: depredando a natureza pelo excesso de consumo, barrando os pobres e vendo o mundo como a soma de países e não cada país como um pedaço do mundo.
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