
No início de março, o Brasil entrou em choque ao saber de um caso de violência extrema: o assassinato de Vitória Regina de Souza, de apenas 17 anos, na região de Cajamar, na Grande São Paulo. Desde então, o país segue tentando entender o que ocorreu. O que ficou claro, contudo, é que nem sempre a pressa é a melhor amiga de uma informação de qualidade.
De forma natural, o caso tão chocante ganhou atenção das redações. A ânsia pela última notícia e pela resolução falou mais alto, e nem sempre buscou-se o cuidado da apuração.
As notícias falsas sobre o caso começaram onde mais prosperam: redes sociais. Divulgação sobre o estado do corpo e até sobre um possível estupro jogavam combustível em uma situação já inflamável.
A investigação policial seguiu sob os olhos atentos da imprensa. Cada novo detalhe descoberto era reportado. Até os errados. A explosão estava posta.
Nomes de suspeitos iam a público e geravam comoção na comunidade já destruída pelo assassinato brutal. Tais suspeitos eram perseguidos e ameaçados, sob a sombra de uma justiça social feita com as próprias mãos.
Durante uma entrevista ao vivo com o pai da vítima — ainda em claro estado de luto —, uma apresentadora declarou que Vitória foi vítima de um suspeito que teria um caso com o namorado da jovem. Informação desmentida pela polícia posteriormente.
Até o momento em que este texto é escrito, a posição da polícia é que Vitória foi vítima de um stalker, ou seja, um homem que a perseguiu e a matou com um objeto cortante. De acordo com a Polícia Civil, ele teria confessado o crime, mas a defesa dele negou.
Na prática, ainda existem muitos detalhes a serem esclarecidos sobre o crime, que ainda pode sofrer novas reviravoltas.
Investigações policiais em andamento, a história mostra, não entregam respostas diretas, não são rápidas nem inquestionáveis. Uma pessoa suspeita em determinado momento pode não ser o verdadeiro algoz. Detalhes de um crime precisam de um atestado técnico, exames — ferramentas que têm mais segurança, mas não ocorrem de um dia para outro. Não são imediatas. Exatamente por isso, trata-se de investigar — procurar, descobrir.
Mesmo que não seja o ideal, o trabalho da polícia durante a investigação tem margem para equívocos, faz parte de qualquer diligência. O trabalho da imprensa não tem essa margem.
Cabe aos veículos de comunicação que têm acesso a tais investigações a ponderação na hora de publicar novidades. Casos como o de Vitória devem acender uma luz vermelha que imediatamente reduz a importância da audiência e preza pelo cuidado.
Diferentemente de um post nas redes sociais, onde frequentemente a imaginação impera, uma publicação jornalística é a que realmente importa. É para essa informação que as pessoas olham em casos inesperados, e que precisam estar certos. Que a tragédia envolta no caso de Vitória deixe algo de ensinamento.