
» ISAAC ROITMAN: Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador e mérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Movimento 2022-2030 — o Brasil e o mundo que queremos
A educação prepara o ser humano para desenvolver suas funções ou atividades na sua caminhada pela vida. A mobilidade, no contexto educacional, refere-se à capacidade de estudantes e profissionais de se deslocarem entre diferentes ambientes de aprendizado, seja físico, seja virtual. Esse conceito abrange não apenas a locomoção entre instituições de ensino, mas também a flexibilidade de acessar conteúdos educacionais de qualquer lugar, a qualquer momento.
A mobilidade na educação é fundamental para promover a inclusão e a equidade no acesso ao conhecimento. Com a mobilidade, estudantes de diferentes origens e realidades socioeconômicas podem ter as mesmas oportunidades de aprendizado. Com o avanço das tecnologias, o futuro da mobilidade na educação promete ser ainda mais dinâmico e interconectado. A mobilidade não será apenas uma questão de deslocamento, mas uma experiência integrada que combina diferentes formas de aprendizado, permitindo que os alunos se tornem cidadãos globais preparados para os desafios do século 21.
Atualmente, na educação brasileira, a mobilidade é ainda incipiente. No entanto, o conhecimento obtido por meio das telinhas precisa ser complementado com a experiência pessoal na diversidade de ambientes educacionais, a possibilidade de acesso e ampla vivência cultural. Certamente, ela contribuirá para a formação ética da espécie humana, e não para a ética instrumental e utilitária do mercado, como já pregava Paulo Freire.
No ensino básico brasileiro, é muito comum que o estudante frequente uma mesma escola por um longo período. Na universidade, isso é a regra. Quando o estudante frequenta uma faculdade, ele não tem oportunidade de adquirir uma cultura universitária ampla, limitando-se a ter experiência em uma única área de conhecimento. Mesmo em uma mesma universidade, o estudante poderia aproveitar eventos, conferências, seminários, mesas-redondas, congressos, exposições, atividades culturais — que ocorrem em todas as áreas de conhecimento. Apesar dessa disponibilidade, ele raramente participa de eventos fora de sua área de especialização.
Um estudante de medicina, física ou química teria uma formação mais completa se, durante o curso, procurasse ambientes em que se discute filosofia, sociologia e ética, por exemplo. Da mesma forma, um estudante de ciências humanas e sociais deveria aproveitar sua passagem pelo ensino superior tendo contato com o desenvolvimento de tecnologias de ponta, como a biotecnologia e a nanotecnologia. Para se promover a mobilidade interna dentro de uma universidade, não é necessário nenhum investimento, mas uma mudança cultural de toda a comunidade universitária. O exemplo deve começar pelos professores.
De forma geral, podemos dividir a mobilidade na educação em duas modalidades: nacional e internacional. A mobilidade nacional seria criar e estimular instrumentos para que estudantes do ensino básico e universitário pudessem ter experiências educacionais em diferentes regiões do Brasil. Já existem programas com essa finalidade, como o Programa Andifes de Mobilidade Estudantil, introduzido em 2003, por meio do qual estudantes de graduação de diferentes universidades federais podem trocar experiências. Em 2009, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Programa Mobilidade Acadêmica Brasil (MAB), que permite aos estudantes vinculados a uma federal cursarem disciplinas em instituições similares. Em adição, estímulos e instrumentos devem estar disponíveis para que os estudantes frequentem atividades acadêmicas no âmbito das universidades. Imagine os benefícios educacionais, culturais e sociais de um estudante do Norte cursar disciplinas em uma universidade da Região Sul, ou vice-versa.
No que diz respeito à mobilidade internacional, o Brasil tem uma larga experiência em cursos de pós-graduação, sobretudo no programa de doutorado sanduíche. O programa Ciência sem Fronteiras, atualmente desativado, foi um avanço no sentido de proporcionar aos estudantes de graduação uma oportunidade de cursar disciplinas e desenvolver outras atividades acadêmicas em boas universidades de todo o mundo. Seria pertinente a reativação desse programa de forma progressiva, com acompanhamento e avaliação para o seu aperfeiçoamento. Espera-se que, no futuro, essas oportunidades sejam ampliadas a fim de preparar nossos estudantes para a cidadania planetária.