
Celebrada este ano no dia 20 de abril, a Páscoa tem diversos significados religiosos e pagãos. Do hebraico ‘Pessach’, “passar sobre”, a festa tem como sentido mais antigo a libertação bíblica dos hebreus da escravidão dos egípcios, retratada no livro do Êxodo, por volta do século 13 antes de Cristo.
Comemoração da liberdade, portanto, a Páscoa judaica ocorria antes mesmo da vinda de Jesus para as religiões cristãs. De acordo com textos da Bíblia, antes de Jesus ser crucificado e morto, em uma sexta-feira — a que hoje se refere como Sexta-Feira da Paixão ou Sexta-Feira Santa —, ele celebrou, durante a última ceia em que teve com os apóstolos, a Pessach.
Com a ressurreição três dias depois, no domingo, os seguidores de Jesus tinham novo motivo para comemorar. Assim nasceu a Páscoa cristã, celebrada no Domingo da Ressurreição, a partir da festa judaica.
Foi apenas no ano 325 depois de Cristo, porém, que a Igreja Católica definiu uma data para unificar a celebração. No Primeiro Concílio de Niceia, convocado pelo então imperador romano Constantino I, decidiu-se que a Páscoa seria celebrada todos anos no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia após o equinócio de primavera, no Hemisfério Norte, e após o equinócio de outono, no Hemisfério Sul — o que pode ocorrer entre os dias 22 de março e 25 de abril.
Elementos de outras comemorações pagãs que ocorriam neste mesmo período para celebrar o fim do inverno no norte foram associados à festa cristã. Na Europa antes de Cristo, por exemplo, era comum trocar ovos de galinha decorados durante o equinócio.
“Desde os tempos pré-históricos, as pessoas celebram os equinócios e os solstícios como momentos sagrados”, afirmou à ABC da Austrália a professora Carole Cusack, da Universidade de Sydney. “O equinócio da primavera é um dia em que a quantidade de escuridão e a quantidade de luz do dia são exatamente idênticas, então você pode dizer que está saindo do inverno porque a luz do dia e a escuridão voltam ao equilíbrio.”
Depois da ressurreição, os seguidores de Jesus passaram a enxergar no ovo e nas tradições de troca uma representação de vida nova. “Os festivais de primavera com o tema de uma nova vida e alívio do frio do inverno tornaram-se explicitamente conectados à vitória de Jesus sobre a morte ao ressuscitar após a crucificação (...). Os ovos, como símbolo de uma nova vida, tornaram-se uma explicação comum para a ressurreição; depois do frio dos meses de inverno, a natureza estava voltando à vida novamente.”
A mesma relação foi feita, algum tempo depois, com o coelho — animal ágil que se reproduz de forma rápida e também representa vitalidade. Além disso, o mamífero é bastante associado à Lua, que determina a data da comemoração, e à deusa pagã da primavera, Eostre — que dá nome à Páscoa até os dias de hoje em países como Inglaterra e Alemanha.
Lendas e folclores alemães dos séculos 17 e 18 também contam sobre lebres que escondiam ovos coloridos para que crianças pudessem caçá-los.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Tudo isso foi amplificado por empresas de cartões comemorativos e chocolates a partir do século 19. Coelhos e ovos se tornaram não apenas símbolos imaginários, mas passaram a estar cada vez mais presentes em imagens e em formato de doces.
Hoje fazem parte, no mundo inteiro, tanto quanto as tradições pagã e judaico-cristã iniciadas há mais de séculos, do feriado que celebra nova vida — seja no que diz respeito à ressurreição de Jesus Cristo, à libertação da escravidão, ou ao fim de mais uma estação.