
As feridas produzidas pela ditadura militar seguem abertas na alma de Fatima Cabrera de Rice, 67 anos, mãe de três filhos e avó de três netos. "Fui sequestrada, aos 17 anos, em 11 de outubro de 1976, com o sacerdote irlandês Patricio Rice. Sobrevivi por causa da pressão do governo da Irlanda. Fiquei por um mês nos centros de detenção e de tortura Garagem Azordato e na Coordenação Federal, o local que pertencia à Polícia Federal. Nesses dois lugares, sofri torturas por todo o corpo. As mais terríveis eram nos genitais. Diziam que eram para que não tivéssemos filhos", contou ao Correio, por telefone. Fatima ficou mais dois anos e meio presa. Mais tarde, reencontrou-se e casou-se com Patricio.
Em 1973, Ernesto Lejderman, 53, era um bebê de apenas dois anos, quando presenciou o pai, argentino, e a mãe, mexicana, serem assassinados pelos soldados, no norte do Chile. Resgatado pela avó, em 1974, ele mudou-se para Buenos Aires, onde militou na Organização de Familiares de Presos e de Desaparecidos. "Não buscamos vingança, não temos ódio, não queremos que os militares e assassinos passem o que passamos. Só queremos justiça", disse ao Correio.

No 49º aniversário da ditadura militar, Ernesto e Fátima se reuniram, nesta segunda-feira (24/3), a milhares de pessoas em uma marcha pelas ruas da capital. Aos gritos de "Mães da Praça, o povo as abraça" — uma alusão à ONG Madres de Plaza de Mayo ("Mães da Praça de Maio) —, ativistas dos direitos humanos, familiares de vítimas e integrantes dos movimentos sociais carregaram uma imensa faixa com os rostos dos mortos durante o regime e caminharam até a Plaza de Mayo. Foi ali, horas antes, que o presidente Javier Milei ordenou a imediata desclassificação (fim do sigilo) dos arquivos em poder da Secretaria de Inteligência de Estado (Side) vinculados às atividades militares e guerrilheiras entre 1976 e 1983. "Em uma data como esta, os argentinos devem valorizar a paz alcançada na democracia e reafirmar nosso compromisso com a memória completa, sem omissões e sem distorções políticas", afirma nota da Presidência da Argentina.
Manuel Adorni, porta-voz da Casa Rosada, anunciou que os documentos da ditadura ficarão sob tutela do Arquivo Geral da Nação. "Em nosso compromisso inabalável com os direitos humanos, contar a história completa é tarefa crucial", declarou à imprensa. "O que ocorreu no passado deve estar nos arquivos da memória, não nos arquivos de inteligência", emendou. O governo Milei equipara os crimes das Forças Armadas aos dos guerrilheiros, tese refutada pelas organizações de direitos humanos. "A violência ilegal exercida pelo Estado não pode ser comparada com a violência das organizações terroristas", explicou à reportagem Miguel De Luca, professor de ciência política da Universidad de Buenos Aires (UBA).
Apesar da decisão de Milei em relação aos arquivos, a Casa Rosada divulgou dois vídeos polêmicos. Em um deles, Agustín Laje Arrigoni, um escritor conservador e analista político argentino, questiona o balanço de 30 mil mortos durante a ditadura e cobra a urgência de uma "memória completa". "A história não é só aquilo que nos contam, é tudo aquilo que nos atrevemos a descobrir. Neste Dia da Memória, defendemos a liberdade de conhecer a nossa história. Completa", declarou. "A quem ocorreu que 8.961 ou 7.300 (mortos) não eram suficientes para dimensionar a magnitude da violência e o desastre da ditadura militar? A quem ocorreu que não eram suficientes para dizer 'Nunca mais'? A quem ocorreu que esses números, por si só, não causavam irritação?", questionou.
O professor Miguel De Luca vê o anúncio de Milei com reservas. "Ainda não há uma decisão concreta. O governo eliminou algumas áreas do Estado encarregadas de investigar o passado da ditadura. É pouco credível que esses anúncios sejam efetivos ou levem a resultados relevantes", advertiu.
Críticas
Sobreviventes da ditadura também demonstram ceticismo e criticam Milei. "A abertura dos arquivos da Side não é mais do que pura declamação demagógica. A verdade é que o goberno desmarmou os setores dependentes da Secretaria de Direitos Humanos que se ocupam da investigação dos arquivos confidenciais, ao demitir todos os funcionários especializados", comentou ao Correio o jornalista Carlos Muñoz, 68, que esteve preso no famigerado centro de tortura ESMA entre novembro de 1978 e fevereiro de 1980.

"A tortura foi o método usado em todos os nossos camaradas sequestrados e desaparecidos. Não fui uma exceção. Recebi choques elétricos por todo o corpo. Colocaram um saco de polietileno enrolado em minha cabeça impedindo a respiração. Mergulharam-me em um balde de água até a asfixia. Colocaram algemas nos meus tornozelos e atrás das costas, e cobriram minha cabeça o tempo todo com um capuz", relatou. Ele entende que igualar os "gravíssimos delitos de lesa humanidade de agentes do Estado com a lutra contra a ditadura de militares populares busca impunidade para os genocidas julgados e condenados, por meio de uma 'anistia' e do chamado a uma falsa reconciliação nacional".

"O governo fala de uma verdade completa. Para nós, que fomos vítimas, não serve uma memória completa, pois isso inclui os militares", afirmou Fatima Cabrera. Ela sublinhou que todas as ditaduras da América do Sul cometeram terrorismo de Estado e defendeu que os agentes da ditadura sejam condenados a crimes de lesa humanidade.