Equador

Partido recua e escolhe novo substituto de Villavicencio

Temendo não fazer parte da disputa pela Presidência, o Movimiento Construye mantém Andrea González como candidata a vice e indica Christian Zurita para encabeçar a chapa. O jornalista era amigo pessoal do político assassinado

A uma semana das eleições presidenciais e temendo ficar de fora da disputa pela Presidência do Equador, o partido Movimiento Construye, de Fernando Villavicencio, assassinado na última quarta-feira ao deixar um comício, anunciou, ontem, um novo concorrente a chefe de Estado. No sábado, a vice da chapa, Andrea González, foi apresentada como candidata. O partido, porém, recuou, alegando a possibilidade de as normas eleitorais invalidarem a participação da ambientalista. Agora, a aposta é no jornalista Christian Zurita, que era amigo de Villavicencio.

O Construye decidiu "que seja o irmão de luta de Fernando Villavicencio, Christian Zurita, que me acompanhe a não deixar que os prazos do CNE (Conselho Nacional Eleitoral) sejam motivo de desqualificação", declarou González, durante coletiva de imprensa em Quito. Ela segue como postulante à vice-presidência. Segundo o partido, o CNE foi consultado sobre a viabilidade da candidatura da ambientalista, mas não deu uma resposta.

A lei equatoriana permite que os partidos nomeiem um substituto em caso de morte de um candidato, mas também consideram que, uma vez inscritas, as candidaturas são irrenunciáveis. "Diante da falta de respostas claras do CNE e da reação furiosa de alguns setores políticos, não correremos nenhum risco. Christian Zurita será inscrito como nosso candidato presidencial", publicou o Construye, no Twitter.

Zurita e Villavicencio desvendaram o caso de corrupção que resultou na condenação do ex-presidente do Equador Rafael Correa a oito anos de prisão. Ao ser anunciado como o novo candidato, o jornalista disse que não poderia deixar que os planos de governo de seu amigo fossem abandonados. "Não podia permitir que seu projeto político se perdesse ante o Conselho Nacional Eleitoral por conta de uma possível destituição de sua candidatura (...) Vamos tentar imitar suas habilidades e tentar imitar seu nome." O jornalista disse, ainda, que o projeto de Villavicencio "está intacto" e que não negociará "com nenhuma máfia".

Sua candidatura, porém, ainda precisa ser oficializada. Por esse motivo, Zurita não participou do debate presidencial obrigatório de ontem à noite. O jornalista garantiu que assistiria ao programa e pontuou que a cadeira de Villavicencio deveria ser colocada vazia junto à dos outros políticos. O debate ocorreu nas instalações do Medios Publicos, onde funciona o canal de televisão pública do Equador, em Quito, sob forte esquema de segurança.

Os arredores do local foram fortemente vigiados pela Polícia Nacional e pelas Forças Armadas desde sábado, com grupos de soldados e policiais distribuídos ao longo de todo o quarteirão onde funciona a televisão, na zona norte da capital. As entradas principais foram bloqueadas por grades, e o acesso ao prédio só pôde ser feito por quem fazia parte de uma lista aprovada pela CNE e pela polícia. O reforço na segurança será mantido ao longo da semana. Isso porque, na última quinta-feira, um dia depois do assassinato de Villavicencio, o governo equatoriano decretou estado de exceção por um período de 60 dias.

"Infinidade de delitos"

As investigações do crime seguem em andamento, e o comandante da polícia, general Fausto Salinas, repassou detalhes sobre os suspeitos. Segundo ele, as sete pessoas detidas têm uma longa ficha criminal no Equador e na Colômbia — seis são colombianos. "Foram estabelecidas diferentes coordenações através da Interpol para, dessa forma, conhecer os antecedentes policiais que eles tinham", disse Salinas.

Os relatórios mostram que os suspeitos haviam cometido uma "infinidade de delitos". Também de acordo com Salinas, alguns deles foram condenados ou estão relacionados, na Colômbia, a casos de tráfico, fabricação e porte de armas, extorsão mediante sequestro, furto e transporte de entorpecentes, entre outros crimes. No Equador, alguns eram procurados por receptação.

O ministro equatoriano do Interior, Juan Zapata, indicou que as próximas etapas das investigações vão focar na descoberta de quem foi o mentor do homicídio. "O segundo passo é utilizar toda a informação e as evidências que temos para chegar exatamente a isso: ver que outros autores existem por trás disto", disse. O presidente Guillermo Lasso responsabilizou o crime organizado pela execução de Villavicencio, sem apontar especificamente para nenhuma das quadrilhas que atuam no Equador.

No sábado, o líder do grupo criminoso mais poderoso do país, a quem o candidato assinado havia acusado de tê-lo ameaçado, foi transferido para um presídio de segurança máxima. Durante a madrugada, cerca de 4 mil policiais entraram fortemente armados, e em veículos militares blindados, no Centro de Privação da Liberdade Regional Número 8 de Guayaquil (sudoeste), onde estava preso José Adolfo "Fito" Macías, chefe do temido grupo Los Choneros.

Saiba Mais

 

Da paz ao narcotráfico

Até alguns anos atrás, o Equador era uma ilha de paz entre Colômbia e Peru, os dois maiores produtores mundiais de cocaína. Desde 2018, porém, ao ritmo das apreensões de drogas, começaram a aumentar os assassinatos com a assinatura do crime organizado transnacional — a taxa de homicídios ligados ao tráfico chegou a um recorde de 26 por 100 mil habitantes em 2022, quase o dobro do ano anterior.

Segundo o ministro do Interior, Juan Zapata, há mais de 13 organizações criminosas operando no país. O mais antigo é o Los Choneros, que se aliou ao cartel mexicano de Sinaloa. Seu rival mais importante, Los Lobos, está associado ao cartel mexicano Jalisco Nueva Generación. A avaliação de especialistas é de que a guerra contra as drogas no México e na Colômbia levou cartéis desses dois países e máfias albanesas a se instalarem no Equador.

A corrupção do Estado e a falta de controle sobre a lavagem de dinheiro também ajudaram. "Há um problema no Equador que a Colômbia não tem hoje. O Equador tem uma política de combate ao crime organizado que não impediu que a força pública e as organizações judiciais fossem infiltradas pelo crime organizado relacionado ao narcotráfico", diz Jorge Restrepo, diretor do centro de estudos colombiano Cerac. Segundo ele, os cartéis operam "com menor custo de produção" porque estão infiltrados em órgãos estatais.