Lisboa — No bairro onde nem a polícia entrava, a expectativa é grande. O burburinho que tomou conta das ruas limpas e de casas envelhecidas, várias sem a infraestrutura necessária, tem sua razão: o Papa Francisco, que desembarcou na capital portuguesa nesta quarta-feira (02/08) para participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), escolheu a comunidade de Serafina para visitar. Será um encontro, na sexta-feira (04/08) com os desfavorecidos, muitos dos quais não têm o que comer. São os abandonado pelo Estado, mas acolhidos pela Igreja.
Serafina fica distante 2 quilômetros do Parque Eduardo VII, encravado numa das regiões mais ricas e caras de Lisboa, onde foi construído um megapalco para as missas que serão rezadas pelo Papa durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Não se sabe, oficialmente, quanto foi investido no megaevento, que se estenderá até domingo (06/08). Mas a verba gasta naquela obra e em toda a infraestrutura para que a Jornada se realizasse — há outro altar do outro lado da cidade, no Parque Tejo —, certamente faria a diferença para o trabalho realizado pelo cônego Francisco Crespo há 45 anos.
O Centro Social São Vicente de Paulo é vizinho ao Aqueduto das Águas Livres, construção imponente do século XVIII, que se destaca no Vale de Alcântara. A instituição beneficiente é muito bem organizada, formada por um conjunto de prédios, como destaque para a belíssima e moderna igreja, a última obra a ser levantada pelo Centro. Sua missão, desde sempre, foi a de atender crianças, da creche ao jardim de infância, garantido-lhes uma boa formação desde cedo. A educação, acredita o padre, é a melhor ferramenta para mudar a vida de uma pessoa.
Também atende os idosos, aqueles que, no fim da vida, foram descartados, como ressaltou o Papa Francisco em seu primeiro discurso em Lisboa. O Centro Social não só alimenta essas pessoas, como dá moradia aos que necessitam de ajuda, são dependentes para quase tudo. A assistência inclui fisioterapia e tratamento dentário. É dignidade numa etapa importante da vida, reconhece o padre. Ele conta que, por dia, 890 pessoas em situação de vulnerabilidade passam pela instituição. São servidas mais de 1,2 mil refeições diariamente.
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Quando olha para o caminho que percorreu em mais de quatro décadas, o cônego, de 82 anos, tem a certeza de que conseguiu mudar a vida de muita gente, especialmente por ter contribuído para que Serafina, que faz parte da Freguesia de Campolide e está separada da área nobre de Lisboa pelo eixo norte-sul, conseguiu se livrar na violência crônica. Ele lamenta, porém, não poder fazer mais, pois as doações que sustentam o Centro Social estão minguando. Há meses bastante difíceis.
“O Papa vem ver uma instituição da periferia de Lisboa, pois que venha”, enfatiza o Cônego Francisco, que tem o mesmo nome escolhido pelo chefe da Igreja católica. Ele, por sinal, será o primeiro Papa que o religioso, que dedicou a vida a atender os mais pobres, verá pessoalmente. Ele ressalta, porém, não ter ideia do porquê de a instituição que dirige ter sido escolhida pelo Vaticano para a visita do pontífice. Talvez, pelo fato de ter dado tantas respostas às necessidades e carências da população do bairro lisboeta.
O Francisco de Serafina esbanja disposição, mas gostaria de poder contar com mais ajuda do Estado para o pagamento dos salários dos trabalhadores do Centro Social. É o mesmo desejo da dona Maria Silva, 86, frequentadora assídua do Centro. Para ela, se houvesse mais recursos públicos, com certeza, haveria mais profissionais contratados e mais serviços seriam prestados à população. É no Centro que ela passa o dia em atividades sociais e a conviver com outras senhoras e senhores, encerrando dia a assistir a missa.
Sobre o reconhecimento do seu trabalho, o padre Francisco só tem uma preocupação, que deem continuidade ao que ele começou e façam progredir mais. Sempre atendendo os que vêm bater à porta diariamente, abrindo o caminho a todos, sem escolher ninguém e dando preferência aos mais pobres.
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