Artigo

Por uma infância offline

A escola, como espaço de formação integral, deve ser uma referência de estímulo ao equilíbrio entre o mundo digital e o real

Correio Braziliense
postado em 21/01/2025 15:58
Garantir um desenvolvimento saudável exige promover interações sensoriais, desafios motores, convivência e experiências reais que envolvam as crianças -  (crédito: Freepik)
Garantir um desenvolvimento saudável exige promover interações sensoriais, desafios motores, convivência e experiências reais que envolvam as crianças - (crédito: Freepik)

Por Ana Lúcia Bresciane*

Agora é oficial: os celulares estão proibidos em sala de aula. A nova lei, sancionada pelo presidente no dia 13 de janeiro, impede que alunos da educação infantil e dos ensinos fundamental e médio utilizem aparelhos eletrônicos pessoais, como celulares, tablets e relógios inteligentes, durante a aula, no recreio ou nos intervalos. Só será permitido o uso em casos de atendimento à saúde ou como forma de garantir inclusão, acessibilidade ou qualquer direito fundamental.

Medidas semelhantes com o objetivo de combater as distrações, promover interações reais e melhorar a qualidade da aprendizagem já foram adotadas em países como França e Austrália, e em vários estados do Brasil, com resultados positivos na concentração, no desempenho acadêmico e na saúde mental dos estudantes. A nova lei também incentiva as escolas a criarem políticas que ensinem o uso consciente e planejado da tecnologia, alinhadas com as necessidades pedagógicas.

O impacto da tecnologia na vida das crianças tem sido amplamente debatido e, em grande parte, a preocupação de educadores, especialistas e famílias, não é proteger as crianças das telas, mas orientar melhor seu uso. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por exemplo, não indica que crianças menores de dois anos sejam expostas às telas, nem mesmo de forma passiva. A exposição precoce está associada a atrasos na fala, prejuízos no sono e problemas cognitivos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também sugere limites rigorosos:

  • 2 a 5 anos: até 1 hora por dia
  • 6 a 10 anos: até 2 horas por dia
  • 11 a 18 anos: no máximo 3 horas diárias

Além disso, o uso excessivo de dispositivos digitais traz consequências físicas e emocionais, como sedentarismo, problemas posturais e aumento da miopia. Dados do UNICEF (2022) e da OMS mostram que 26% das crianças e adolescentes relatam sofrer cyberbullying. A exposição a conteúdos prejudiciais na internet é alarmante: 20% encontram dicas extremas sobre sono e alimentação, 14% têm contato com temas relacionados ao suicídio e 11% se deparam com conteúdo sobre uso de drogas, preocupando famílias e educadores.

Em um mundo onde as crianças estão cada vez mais conectadas, as consequências são profundas: há um aumento de comportamentos impulsivos, agressividade e uma redução significativa da qualidade do sono e da atenção. Como destaca Jorge Larrosa Bondía (2002), “a experiência é o que nos toca, nos transforma e nos constitui como sujeitos”. Quando uma tela ocupa o lugar do brincar, do explorar e do aprender, algo essencial se perde.

Com a aprovação da nova lei, ganha-se uma pausa para repensar todos os impactos da tecnologia digital no desenvolvimento integral das crianças, bem como na aprendizagem. Diante disso, na escola, o desafio se amplia: é preciso criar um ambiente que valorize a experiência real, as interações e a convivência, resistindo à predominância das telas.

Como fazer isso?: um olhar para a experiência

No espaço ekoa, por exemplo, escola de educação infantil e ensino fundamental na cidade de São sempre houve a restrição do uso de celulares em todos os momentos do dia escolar. Essa é uma abordagem intencional e pedagógica, um posicionamento em favor do desenvolvimento e da saúde integral. A ideia principal é que o uso das tecnologias seja mediado e intencional, nunca substituindo a vivência real.

O currículo de Educação Digital é aplicado de forma planejada e progressiva, conectando o uso consciente da tecnologia às demais áreas do conhecimento. As práticas envolvem desde o uso planejado de dispositivos tecnológicos em contextos pedagógicos e mediado, o monitoramento de conteúdos e apoio na gestão do tempo de tela, até atividades integradas, utilizando a tecnologia como ferramenta e não como protagonista.

Temos observado que esse é um exemplo de abordagem que traz ganhos evidentes: alunos mais atentos, engajados e capazes de criar relações sociais saudáveis. A escola, como espaço de formação integral, deve ser uma referência de equilíbrio entre o mundo digital e o real.

Nesse sentido, a nova lei sinaliza uma oportunidade para o Brasil priorizar políticas públicas voltadas para o uso consciente de dispositivos digitais, reforçando o papel transformador das escolas na formação equilibrada e saudável das crianças e jovens.

Preservar a infância é um ato de resistência e uma responsabilidade compartilhada entre educadores e famílias. Garantir um desenvolvimento saudável exige promover interações sensoriais, desafios motores, convivência e experiências reais que toquem e transformem as crianças. Ao restringir o uso indiscriminado das telas e criar um ambiente educacional voltado para o equilíbrio, a escola contribui com a construção de um mundo mais consciente, saudável e humanizado.

Psicóloga Ana Lúcia Bresciane
Psicóloga Ana Lúcia Bresciane (foto: Arquivo pessoal)

*Mestre em psicologia da educação e psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É coordenadora geral do espaço ekoa, escola de educação infantil e ensino fundamental na cidade de São Paulo. Atua na área da formação docente e assessoria pedagógica e é professora do curso de graduação em no Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISEVC) em São Paulo.

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