Durante 14 dias de disputa simultânea, a Eurocopa e a Copa América chamaram a atenção por complexidades que vão muito além dos gramados. Recheadas de casos polêmicos e politizados no extracampo, as principais competições de seleções do mundo do futebol foram muito além das bolas na rede, com uma extensa pauta de discussão composta por censuras, protestos sociais, quebra de protocolos da pandemia e até assédio sexual.
Semelhantes em contextos gerais, as tretas têm um contra ponto importante. Na Euro, os incidentes estiveram ligados, basicamente, a políticas sociais. Na Copa América as polêmicas tiveram uma variação extensa, invadindo, inclusive, páginas policiais. Em Cuiabá, um segurança do Uruguai foi preso sob a acusação de importunação e assédio sexual contra uma funcionária da Conmebol. O profissional negou as acusações, mas foi desligado da delegação uruguaia.
Durante os 36 jogos da primeira fase da Eurocopa, jogadores se ajoelharam em protesto contra o racismo. Ainda assim, um caso foi investigado. O atacante austríaco Marko Arnautovic comemorou um gol com um gesto de ok — relacionado como menção à supremacia branca. Ele negou tal conotação, mas foi punido, embora enquadrado em “insulto a outro atleta”. A homofobia também esteve em pauta no Velho Continente, com foco principal na Alemanha.
Capitão da seleção do país, o goleiro Neuer atuou com uma braçadeira de arco-íris em apoio ao movimento LGBTQ+. Na rodada final, a cidade de Munique propôs iluminar o estádio com as mesmas cores para a partida entre Alemanha e Hungria. A ação foi negada pela Uefa “pelo caráter político”. Em retaliação, torcedores levaram bandeiras do movimento. Com uma delas, um ativista invadiu o gramado durante o hino húngaro. Na semana do protesto, o país aprovou uma lei que restringe os direitos de informação com relação à homossexualidade e transexualidade.
Organizadoras dos torneios, Conmebol e Uefa protagonizaram outras decisões polêmicas. A entidade sul-americana censurou quem proferiu críticas ao torneio. Tite foi multado em US$ 5 mil por avaliar a organização como "atabalhoada". O atacante boliviano Marcelo Moreno foi suspenso de um jogo e pagou US$ 20 mil após questionar o surgimento de casos de covid-19 nas seleções — até ontem, 166 foram confirmados. “Se alguém morre, o que vocês vão fazer? Quanto vale a vida dos jogadores?”, escreveu.
Durante o torneio, Brasil e Chile ignoraram o protocolo de segurança ao permitir a entrada de um cabeleireiro para cuidar do visual dos jogadores nas concentrações. A federação chilena prometeu multar os envolvidos. “Tivemos sorte de não ter contágio. Sabemos dos erros e assumimos as consequências", disse o capitão Cláudio Bravo. A CBF optou por não comentar o caso oficialmente.
Na entidade europeia, chamou a atenção a ação nos bastidores após jogadores como Cristiano Ronaldo e Pogba retirarem garrafas de patrocinadores das mesas de entrevistas. A Uefa precisou colocar panos quentes no mal-estar publicitário. A Copa América também enfrentou problemas com apoiadores. Marcas deixaram o torneio para não atrelar o nome à polêmica organização no Brasil. Com isso, durante os jogos, apenas três logos restaram nos painéis ao redor dos gramados.
Reunião de dezenas de nações das mais diferentes culturas e posicionamentos políticos, Eurocopa e Copa América extrapolaram as quatro linhas de delimitação do gramado e tornam-se, cada vez mais, canais de expressão e reflexo dos principais temas e problemas da sociedade.