Comércio Exterior

Lula embarca para o Japão em busca de ampliar a corrente de comércio

Em visita de Estado, presidente será recebido pelo imperador Naruhito e chefiará negociações para aumentar exportações e importações entre os dois países

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, partiu neste sábado à noite para Houston (Texas), de onde seguirá para Tóquio. O vice, Geraldo Alckmin, exercerá o cargo - (crédito: : Ricardo Stuckert / PR) -  (crédito: : Ricardo Stuckert / PR)
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, partiu neste sábado à noite para Houston (Texas), de onde seguirá para Tóquio. O vice, Geraldo Alckmin, exercerá o cargo - (crédito: : Ricardo Stuckert / PR) - (crédito: : Ricardo Stuckert / PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou, neste sábado (22), para a sua primeira visita de Estado ao Japão, que vai de segunda a quinta-feira, em Tóquio — capital do país asiático. Diferente do que ocorre em outros países, a visita de Estado ao Japão é uma honraria rara e ocorre, no máximo, uma vez por ano. Ela inclui recepção no Palácio Imperial, onde vivem o imperador Naruhito e a imperatriz Masako, além da reunião com o primeiro-ministro Shigeru Ishiba.

A viagem é amplamente aguardada por autoridades dos dois países, e marca os 130 anos de relação diplomática. Vale destacar o histórico de imigração: são 2,7 milhões de japoneses e descendentes vivendo no Brasil, a maior comunidade fora do Japão; e 220 mil brasileiros moram no país asiático. Integrantes do governo japonês ouvidos pelo Correio destacam a proximidade entre os dois lugares, apesar da distância geográfica. Por exemplo, o Brasil é o único país que rotineiramente, a cada dez anos, recebe um membro da família imperial brasileira. No primeiro semestre de junho, a princesa Kako, filha do casal imperial, será recebida no país.

O governo japonês estima em 70 o total de acordos que serão assinados, seja entre órgãos públicos dos dois países, seja entre empresas privadas. Temas como o multilateralismo, mudanças climáticas, paz e estabilidade no mundo e promoção do comércio e investimento entre as nações são prioridade na agenda. Além disso, Lula espera destravar a venda de carne bovina brasileira para o Japão.

“O objetivo da visita é dar impulso a setores prioritários, novos setores na relação. Acho que a gente tem como base essa boa relação, vínculos humanos, econômicos, mas a gente tem que avançar”, disse o secretário de Ásia e Pacífico do Itamaraty, embaixador Eduardo Saboia, ao detalhar a jornalistas a visita de Estado. No âmbito comercial, Saboia destacou que o Japão é o parceiro “mais tradicional” do Brasil na Ásia, com fluxo comercial de US$ 11 bilhões em 2024, superavitário do lado brasileiro, mas que “já foi melhor” para o Brasil. Além disso, o Japão é a 9ª maior origem de investimentos externos no Brasil, com estoque de US$ 35 bilhões em 2023.

O Brasil também quer avançar em um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e o Japão. O tratado já foi considerado pelo governo japonês, mas ainda não houve discussões práticas. “Vamos ficar nessa conversa, ou vai ter negociação? O Mercosul concluiu a negociação com a União Europeia, com Singapura, então eu acho que há um ponto de interrogação. Com a visita do presidente (Lula), é um interesse avançar nessa área. Claro que não depende só do Brasil ou do Japão, temos os outros parceiros do Mercosul, que têm sido bastante favoráveis a essa possibilidade”, respondeu Saboia ao ser questionado sobre o tema.

Lula viaja ao país acompanhado de ministros e cerca de 500 empresários brasileiros, que vão participar de um fórum empresarial com executivos japoneses. A primeira-dama Janja da Silva embarcou antes, com a equipe da Presidência enviada para preparar a agenda presidencial. Ontem, ela participou de um encontro com mulheres brasileiras que vivem no Japão e atendem vítimas de violência doméstica e de gênero no país.

Expectativas

O governo brasileiro não divulgou a expectativa sobre o número de acordos que serão assinados, mas um integrante do governo do Japão, ouvido sob reserva, acredita que seja em torno de 70, incluindo acordos privados.

Há um interesse do país asiático em áreas, como transição energética, leilões para a geração de energia limpa e compra do biocombustível brasileiro. O Japão planeja elevar o seu consumo de combustíveis sustentáveis, com meta para que todos os carros fabricados a partir de 2030 sejam compatíveis com etanol, além de aumentar o uso do querosene sustentável da aviação (SAF). Até 2030, o objetivo é que 10% dos combustíveis fósseis sejam trocados por alternativas sustentáveis.

No âmbito internacional, o Japão prestará apoio ao Brasil em temas como a reforma dos organismos multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU); o fim dos conflitos em curso e a temática ambiental, especialmente com o Brasil ocupando a presidência do Brics e da COP 30. O governo asiático demonstra preocupação com a emergência climática e espera poder avançar no tema durante a conferência climática. Negociadores japoneses veem com otimismo a gestão brasileira, mesmo com o desafio da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Um diplomata ouvido pela reportagem, com experiência em clima, diz que o medo de uma COP esvaziada é “infundado” e que o Brasil é capaz de avançar a agenda com outros atores que não o governo de Donald Trump, mesmo dentro dos Estados Unidos. Após a viagem ao Japão, Lula fará uma visita de Estado também ao Vietnã.

 

Victor Correia
postado em 23/03/2025 03:59 / atualizado em 26/03/2025 21:55