Coronavírus

Com menos trabalho e mais tarefas domésticas, pandemia penaliza mais as mulheres

Ocupando postos em setores mais afetados pela crise sanitária e acumulando tarefas domésticas, que aumentaram com os filhos fora da escola, elas são maioria entre o contingente de pessoas que perderam renda com a recessão trazida pela covid-19

» SARAH TEÓFILO » ALEXIA OLIVEIRA* » FERNANDA STRICKLAND*
postado em 09/05/2021 07:00
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

Com dois filhos, de 3 e 5 anos, a estudante Angélica Carvalho de Mesquita, de 22 anos, ficou desesperada quando perdeu o trabalho como recepcionista, no primeiro semestre do ano passado, logo no início da pandemia. O auxílio emergencial concedido pelo governo foi um alívio em meio ao caos para a moradora de Brasília, mas, quando acabou, o desespero voltou. “Não podia trabalhar porque, com as creches fechadas, não tinha com quem deixar meus filhos”, diz.

Por muito tempo, Angélica dependeu de ajuda, uma vez que o valor da pensão paga pelo pai das crianças só era suficiente para o aluguel da residência. Finalmente, neste ano, conseguiu um estágio remunerado e uma babá para cuidar dos filhos. A situação de Angélica se repete pelo país. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, enquanto 2020 terminou com a criação de 199.351 vagas de trabalho formal para homens, o saldo foi negativo (-111.567) para as mulheres.

Dois principais fatores explicam o maior afastamento das mulheres do mercado durante a pandemia: o fato de atuarem mais nos segmentos de serviços, duramente atingidos pela crise sanitária, e por acumularem as tarefas domésticas, que aumentaram com os filhos fora do ambiente escolar. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada em junho do ano passado, já mostrava que as mulheres dedicam 10,4 horas por semana a mais do que os homens com afazeres domésticos.

A economista Maria Andreia Lameiras, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirma que, sem a pandemia, as mulheres partem de uma situação pior que a dos homens. “A primeira medida de isolamento foi a interrupção das aulas. Em casa, não tem quem cuide das crianças”, diz, ressaltando que a situação recai sobre a mulher.

A pesquisadora também frisa que as mulheres perderam mais postos de trabalho por estarem em áreas mais afetadas pela crise. “A maioria das chefes de família é autônoma. É a diarista, a ambulante, a mulher que faz uma quentinha para vender, a manicure. São ocupações inviabilizadas pela pandemia. Além disso, muitas chefes de família estão inseridas em ocupações com menor qualificação, porque não têm o tempo necessário para estudar e, além da jornada de trabalho, têm de cuidar da casa, dos filhos”, ressalta.

Sobrevivendo
É o caso de Ângela França, 35 anos, vendedora autônoma em Samambaia Sul (DF). Ela mantém as duas filhas, sendo a mais nova de 4 anos. “Estou desesperada, pois não trabalho fixo. Com a pandemia, minhas vendas caíram muito, tem dias que não tenho uma mistura para comer e, às vezes, recebo doações”, conta, afirmando que depende do Bolsa Família para ajudar na renda. “Minha filha mais nova, às vezes, quer um lanche, mas não tenho dinheiro. Minhas contas estão todas atrasadas, até o aluguel.”

Dados da Pnad Contínua, de 2019, mostravam que 13,45% das mulheres chefes de família eram trabalhadoras domésticas sem carteira assinada. E, conforme ressaltado pela professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Bila Sorj, foram justamente essas trabalhadoras as mais afastadas em decorrência da pandemia (26,8%), segundo a Pnad de junho do ano passado.

Bila frisa que a redução do número de mulheres ocupadas foi muito significativa. Conforme o IBGE, desde 1991, a taxa de ocupação nunca esteve abaixo de 50%, até o segundo trimestre do ano passado, quando alcançou 46,3%. No trimestre seguinte, a taxa caiu para 45,8% e, depois, subiu para 47,8%. “As conquistas das mulheres no mercado de trabalho ao longo dos últimos 30 anos se dissiparam com a pandemia”, afirma.

Professora do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Daniela Freddo acrescenta que a pandemia agravou as desigualdades de gênero. “O mercado é machista. Em um período de expansão econômica, você consegue inserir mulher, mulher negra, que é ainda mais difícil. Mas, num momento de recessão, elas são as primeiras a serem mandadas embora”, afirma.

Elaine Pazello, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, lembra, ainda, das chefes de família que trabalham na informalidade e perderam a renda durante a pandemia. É o caso da diarista Glaucileia Lopes, 45 anos, que conta com a ajuda de familiares para cuidar dos quatro filhos pequenos.

Moradora do Novo Gama (GO), Glaucileia relata que a renda mensal deixou de ser suficiente para pagar todas as despesas. “Em um mês, eu pago uma conta; no outro, pago a do mês anterior. Nunca tem dinheiro para quitar tudo”, explica. Além disso, enfrenta, diariamente, o temor de levar o coronavírus para casa. “Meu maior medo é infectar meus familiares”, diz.

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