China vê contágio em frango brasileiro

Autoridades sanitárias da cidade de Shenzen dizem ter encontrado vestígios do novo coronavírus em amostras embarcadas no Brasil. Ministério da Agricultura ainda aguarda informações. Para a OMS, consumo de alimentos não oferece risco de infecção

A qualidade dos produtos vendidos para outros países sempre foi um assunto tratado com extrema seriedade pelas nações importadoras. Com a chegada da pandemia, no entanto, a rigidez no controle de qualidade dos alimentos passou a ser cobrada como nunca antes. Ontem, as autoridades sanitárias do município de Shenzen anunciaram vestígios do Sars-CoV-2 em amostras de asas de frango provenientes do Brasil e comercializados pela produtora Aurora Alimentos, de Santa Catarina.

A China é a principal parceira comercial do Brasil e destino de grande parte da produção nacional de carnes e grãos. Até 2017, cerca de 85% de todo o frango comprado pelo gigante asiático eram provenientes daqui. Somente em julho, aproximadamente 365 mil toneladas da carne foram embarcadas para lá. Neste ano, a China já havia imposto restrições a seis frigoríficos brasileiros em meio à preocupação com a contaminação de funcionários por covid-19.

De acordo com o Ministério da Agricultura brasileira, a autoridade sanitária local chinesa teria encontrado material genético do novo coronavírus em uma amostra congelada. Outras amostras do mesmo lote foram analisadas, porém, com resultado negativo. Pessoas que tiveram contato com o produto fizeram testes, que deram negativo para covid-19.

O Ministério informou, em nota, que, até o fim da tarde de ontem, não havia sido procurado por autoridades chinesas sobre o ocorrido. A pasta tentou contato com a Administração-Geral de Aduanas da China em busca de informações oficiais. A nota ressalta, ainda, a segurança dos alimentos produzidos nos estabelecimentos sob a supervisão do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

Informação exagerada

A Organização Mundial da Saúde (OMS) garantiu que a transmissão de coronavírus não é possível através de comida. Michael Ryan, diretor de situações de emergência sanitária da OMS, afirmou que não há provas de que os alimentos ou as cadeias alimentares participem da transmissão do vírus. “As pessoas não devem temer os alimentos, nem a embalagem, o processamento ou a entrega dos alimentos”, afirmou. Ele disse, também, que esse tipo de informação não pode ser exagerada, pois “já temos medo suficiente da pandemia”.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) afirmou, também em nota, que ainda está analisando as informações disponíveis.

Para Felippe Serigati, coordenador do mestrado em agronegócio da FGV, é normal que as preocupações em torno de alimentos tenham crescido, diante da suspeita de que o marco zero da pandemia tenha sido um mercado de frutos do mar em Wuhan. Ele destaca, no entanto, que há muitas dúvidas em relação ao anúncio do governo chinês sobre a possível contaminação.

“Não está claro em que etapa do processo houve essa contaminação. Foi do frigorífico, embalagem ou transporte? O produto estava congelado por vários dias. Como esse material genético estava presente lá? A princípio, acho que isso não vai afetar de forma expressiva nossas exportações. Mas como ainda estamos aprendendo sobre o vírus, o ideal é averiguarmos o que houve”, defendeu.

Serigati afirmou, também, que talvez seja uma boa hora para avançar nas pesquisas sobre a segurança de alimentos contra o vírus. “Ainda vamos ter que lidar com isso durante um tempo. Não acho que a curto prazo esse fato isolado terá grandes impactos. Mas vale a pena um esforço de ambos lados, Brasil e China, de fiscalizar o alimento”, afirmou.

Para o professor, a resposta dos frigoríficos brasileiros aos protocolos e riscos trazidos pela pandemia tem sido boa, especialmente quando comparado a outros países. “Não tivemos nenhum caso generalizado como tiveram os Estados Unidos. Frigorífico é propício para esse tipo de coisa porque é um ambiente de preservação de produtos biológicos. Há aglomeração de pessoas, e é um espaço. É favorável para o espalhamento do vírus. Mesmo assim temos conseguido gerar bons resultados”, avaliou.

Dólar e bolsa em baixa


Depois da forte alta do dia anterior, quando chegou a R$ 5,45 o dólar recuou 1,54% ontem, fechando a R$ 5,36. A queda foi motivada pela boa reação dos investidores ao compromisso com o teto de gastos, manifestado pelo presidente Jair Bolsonaro ao lado dos presidentes da Câmara e do Senado, ainda na noite de quarta-feira. Além disso, o mercado acompanhou o exterior, onde o dólar se enfraqueceu ante as principais moedas.

Já a Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo(B3) começou o dia no azul, mas terminou o pregão em queda de 1,62%, a 100.461 pontos. Para muitos operadores, foi um sinal de que o discurso do governo favorável ao controle das despesas foi visto com certa desconfiança pelo mercado.

“Tivemos uma abertura mais favorável, com alguns balanços positivos que rodaram bem com a sinalização do Paulo Guedes” disse William Teixeira, assessor de investimentos da Messem Investimentos. Os investidores animaram-se, também, com a alta de 5% no setor de serviços, depois de quatro meses de queda.

Também influenciou os negócios a notícia de que os pedidos semanais de auxílio-desemprego nos EUA foram melhores do que o previsto, somando 963 mil, ante expectativa de 1,1 milhão. Ao longo do dia, porém, o Ibovespa zerou os ganhos e acabou fechando em terreno negativo.

A notícia de que foram encontrados sinais do novo coronavírus em embarques de frango do Brasil para China derrubou cotações de empresas exportadoras do produto. O petróleo também contribuiu para a queda, depois da projeção de baixa demanda neste ano feita pela Agência Internacional de Energia (IEA). “Petrobrás e Vale recuaram bem, em linha com a queda das cotações de minério de petróleo” explicou Teixeira.

*Estagiários sob a supervisão de Odail Figueiredo