Crítica

O documentário sueco , A última jornada chega os cinemas

O jornalista Filip Hammar leva o público para a última viagem que fez com pai neste documentário, sensível e alegre ele pretende contagiar a plateia com essa história

A última viagem: realidade bastante divertida -  (crédito:  Universal)
A última viagem: realidade bastante divertida - (crédito: Universal)

Um idoso que perambula por todos os lados com um dicionário à mão, que cultiva as memórias vividas dentro de um Renault 4 laranja e que está designado a redescobrir o fato de "a vida ser boa". O filho desse senhor sueco destinado a "esquecer a escuridão" sabe de cada idiossincrasia do pai, que tem paixão em presenciar as tretas de trânsito ocorridas a cada esquina da França e arrasta uma infindável leitura de biografia de Charles de Gaulle (jamais concluída). Tal qual uma versão comedida de Borat (um Borat do bem), o filho, Filip Hammar (na vida real, apresentador de tevê), pretende investir nas filmagens de um documentário inusitado, no qual tem por vontade reafirmar ao pai (e a espectadores) que vale a pena viver a vida.

O filme é simbólico na capacidade de redesenhar a alegria da recriação de um passado glorioso para o homem cujo maior pior pecado na vida foi gritar com um taxista (no filme, em cena cômica, ele será absolvido por um padre). Havia, no passado, o indício de que Lars aproveitaria a vida, saudável, em 2008, às vias da aposentadoria. Ao mesmo tempo, no filme, em que se diz um pessimista, Lars carrega um extraordinário senso de autenticidade. Do alto de uma velha poltrona belga, ele parece num quadro distante do idealizado pelo filho, que quer vê-lo em uma vida sem depressão. Sentindo-se machucado (por uma queda), inseguro e inútil, Lars não vê a tal luz do fim do túnel. O filho (ao lado do amigo Fridrik Wikingsson, também celebridade televisiva na Suécia) mantém a esperança.

Na Escandinávia, no prestigiado âmbito do Guldbagge Awards, o longa (dirigido por Wikingsson e Hammar) venceu nas categorias de melhor filme, pelo público, e melhor documentário. Espontâneo e sem filtros, Lars, como antigo e alucinado professor francófono, revisita valores e pessoas a quem admira, como o cantor e compositor Jacques Brel (de Ne me quitte pas) e o politizado artista Georges Brassens. Às margens do Mediterrâneo, em que revive situações da juventude, Lars vê o colorido do gosto por comidas como o ratattouile, o exquise ("o prazeroso") do foie gras e ainda por uma hilária história pessoal envolvendo Harry Bellafonte.

Há uma certa dose de frustração na itinerância do trio, que passará por Tyskland, Bruxelas e Sète, além de Nice e outros locais da Riviera Francesa. Lars, por segundos reacende a chama da independência, e solta um "Viva a França!", ao volante, a metros da fronteira de países. A alusão a um período de glória, aos 49 anos, do pai emociona, junto com a força da matéria-prima burilada no filme: o valor de memórias. Os registros, no gravador, buscam as diversões que substituem os medo do dia a dia de um Lars fragilizado, no hospital. Protagonizando situações de prazeres curtos e imediatos, pouco a pouco o aplicado ex-professor recobra o talento de ensinar. No caso, uma lição de vida aos espectadores. Se para Lars, a liberdade dos franceses parece teatro, a dele, no canto de cisne, parece um bálsamo.

 

postado em 18/04/2025 07:17
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