
Crítica // Câncer com ascendente em virgem ★★★
"Nada como o tempo" é o pensamento que, muito aos poucos, domina a cabeça da protagonista da comédia dramática Câncer com ascendente em Virgem, a professora de matemática Clara (Suzana Pires, numa esforçada interpretação). Com uma "vida sem grandes tropeços", ela terá a realidade virada pelo avesso, pela detecção de um câncer de mama e suas duras propostas de tratamento. Dona de uma carga mental "que não vai embora", Clara chora sozinha (condição que bem conhece), traz na veia o comparativo constante junto a outras mulheres e luta pela "força necessária para ser curada".
Diretora de muitas comédias e dos filmes infantis Tainá: a origem (2011) e Pluft (2022), Rosane Svartman, com a leveza de uma telenovela, comanda a trama (adaptada por Pedro Renato, Martha Medeiros e Suzana Pires) nascida nos dramas reais da produtora Clélia Bessa, que por meio de blog (vertido para o livro Estou com câncer, e daí?) viu enorme rede de acolhimento, quando doente.
Popular na internet (em que dispensa filtros), a personagem Clara é das que não poupam mico para a filha (papel de Nathália Costa) e convive a distância segura da mãe (Marieta Severo, sempre divertida e luminosa) que se diz "galinha alfa". "Paciência e sabedoria" vão acompanhar Clara nas etapas de reduções no volume da doença, sempre encarada por ela, no campo das probabilidades. Ajudam ainda as imagens e os apoios fornecidos pela mãe, que vão do "buda médico" ao quartzo verde, passando por Iemanjá e a corrente de rezas de Santa Bertilla. Infalíveis serão as companhias das amigas Paula (Carla Cristina Cardoso) e Dircinha (Fabiana Karla, encantadora na simpatia), fornecedora de crochês e de boas fofocas. Na crise dos cinquenta, o ex-marido é interpretado por Angelo Paes Leme.
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A princípio, independente e responsável, Clara adquire a humildade na perda de controle, ao tempo em que descobre ser "nascimento o contrário da expressão morte". Ouriçada nas amenidades recebidas por amigas de whatsApp, a personagem de Marieta Severo goza das maiores oportunidades para identificação e real conexão com o público. Vivendo, de "zero a cem", Clara crava uma presença interessante, entre um mundo de aparências e os pequenos "mimos" do dia a dia. Um paralelo interessante com a empatia da figura de Paulo Gustavo brota quando, depois de chiliques e extravagâncias, Clara se vê careca, na comédia de tom agridoce. Impossível não associar.
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