ARTES CÊNICAS

Denise Fraga volta a Brasília com o espetáculo Eu de Você

Denise Fraga apresenta no Teatro da Unip a peça Eu de você, colagem de histórias reais adaptadas para a cena teatral

Denise Fraga: voz das histórias triviais de personagens cotidianas  -  (crédito: Eu de Você/ Divulgação )
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Denise Fraga: voz das histórias triviais de personagens cotidianas - (crédito: Eu de Você/ Divulgação )

O espetáculo Eu de você, interpretado por Denise Fraga, está em Brasília pela terceira vez nesta semana, no Teatro Unip. Essa peça, um monólogo ou peça solo — como a atriz prefere chamar — é uma colagem de histórias reais apresentadas por meio de recursos cênicos. A fusão dessas 25 narrativas com textos de Clarice Lispector e Fernando Pessoa, além de músicas de compositores, como Chico Buarque, retrata a complexidade das experiências humanas e o apoio que a arte traz em momentos delicados. A temporada na cidade será breve, assim como foi em 2024, mas ainda cheia de coragem e público. Os últimos ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.

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Denise Fraga tem utilizado as habilidades de atriz para narrar histórias reais, sejam elas breves ou mais extensas. Embora exista uma semelhança com seu famoso quadro no Fantástico, Retrato Falado, a nova peça busca envolver o público de uma maneira distinta, apresentando narrativas menores e utilizando diversas mídias como suporte. Ao Correio, a atriz compartilha que as 300 cartas recebidas para montagem do espetáculo tinham um tom diferente das enviadas para seu programa na TV Globo. "Foi em 2018 que decidimos criar este espetáculo, logo após a eleição do Bolsonaro. As histórias refletiam uma melancolia maior, e parecia que todos estavam mais tristes", revela.

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Entretanto, a confiança depositada pelo público em Fraga, no produtor José Maria e no diretor Luiz Villaça foi fundamental para a construção de Eu de você. "As pessoas diziam: 'Denise, você é quem vai falar por mim, você é quem me dará voz'. Isso me deixou com uma grande responsabilidade em relação a essas histórias que me foram confiadas. As pessoas compartilharam relatos muito íntimos, algumas histórias que talvez nem fossem postadas em algum lugar", recorda a atriz. Esse sentimento de responsabilidade não apenas moldou a sua interpretação, mas também a incentivou a mergulhar profundamente nas emoções de cada narrativa, buscando uma conexão genuína com os sentimentos e experiências de quem havia se aberto para ela. 

Assim como a arte se torna um guia para aqueles que buscam uma vida melhor, a citação de Simone de Beauvoir serviu como matriz para o espetáculo. "Por que eu escrevo? Porque é necessário. Nos momentos mais difíceis da minha vida, rabiscar frases — mesmo que nunca sejam lidas por ninguém — me traz o mesmo conforto que a oração traz a quem tem fé", parafraseia Denise durante a apresentação. A habilidade de encontrar sutilezas entre essas histórias e entrelaçá-las com elementos da música popular ou com citações da literatura proporcionou a atmosfera essencial para a obra e justifica o sucesso de público que ela vem conquistando desde 2019.

Denise ressalta a importância do teatro como um espaço de imersão. Os anos dedicados ao teatro, juntamente com o avanço da tecnologia e o acesso da massa à informação, trouxeram à sociedade uma constante distração. A modernidade, associada a uma infinidade de mídias, prejudicou o processo de atenção do público. No entanto, a atriz acredita que o teatro é um dos poucos lugares onde ainda existe um certo grau de discrição. “O teatro é um espaço de comunhão, de compartilhamento. Talvez seja um dos únicos ambientes que ainda permite desconexão, seja por ética, etiqueta ou qualquer outro motivo. O teatro ainda é um lugar que leva as pessoas a um estado que elas não conseguem mais alcançar sozinhas”, explica a atriz, adotando um tom esperançoso.

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O processo de escuta ativa e empatia se tornaram fundamentais, permitindo que Denise se tornasse uma verdadeira porta-voz dessas vivências, ao mesmo tempo em que respeitava a individualidade de cada história. A atriz chamou os autores de duas das histórias mais delicadas do show para assistirem a um dos ensaios: Felipe, o rapaz que havia sido violentado pelo tio na infância, e Carina, mulher negra que decidiu romper o ciclo de abandonos masculinos de sua família terminando com o pai violento. O  cuidado de contar da maneira certa essas vivências levou Denise a ouvir um dos feedbacks mais importantes em sua carreira. "Eu cheguei para Felipe e perguntei como ele tinha se sentido com a apresentação, nunca vou me esquecer disso. Ele respondeu: "livre", afirma.

Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

 

Arthur Monteiro*
postado em 31/01/2025 07:01 / atualizado em 31/01/2025 09:47