Uma grande viagem de referências musicais e pessoais forma o novo trabalho de Anne Clark, conhecida na música como St. Vincent. Daddy’s home é o sexto álbum de estúdio da cantora e foi lançado nesta sexta (14/5), disco que mescla uma nova identidade visual e sonora que a artista propôs recentemente com a St. Vincent, velha conhecida dos fãs.
O álbum começa pessoal com um título que faz referência à vida de Anne Clark. Daddy’s Home, em tradução literal, significa “casa do papai”. O título foi escolhido justamente na mesma época em que o pai da cantora foi liberado da prisão, após 10 anos cumprindo sentença por manipular ações. O caso foi mantido em segredo até 2016, quando vazou para a imprensa. O escândalo familiar permeia todo disco, mas não de maneira explícita e sim com pistas. O fato é citado com mais veemência apenas na primeira música, Pay your way in pain, em que St. Vincent canta: “Você teve de pagar o seu caminho com a dor/Você teve de pagar seu caminho com a vergonha”.
Enquanto a temática das letras diz respeito ao pai da artista, a parte musical é uma variação de passado, presente e futuro. O álbum é amplamente baseado nos sons dos anos 1970, com referências que vão de Pink Floyd a David Bowie, passando por uma pegada jazz, blues e até pelo funk norte-americano. Porém, sem perder a essência de toda da trajetória da artista, com um som futurista. A mistura de passado e futuro dá um caráter complexo à produção, que se encaixa perfeitamente na nomenclatura atual do gênero pelo qual St. Vincent é conhecida, o art-pop, um pop com toques rebuscados da música alternativa.
É como se, pela primeira vez, Anne fizesse um álbum que refletisse a música que ela ouve, e não o som da imagem que ela passa. As faixas, por vezes, soam familiares, mesmo sendo lançamentos, devido à quantidade de referências conhecidas que ela inseriu nas composições e na forma de cantar.
Anne Clark cria uma nova persona, usada tanto nas músicas quanto nos videoclipes. A forma de cantar é quase setentista, os arranjos também. Visualmente, as escolhas de cores e roupas resgatam o passado da música. A artista sempre faz isso, liga as músicas a uma versão de si própria que beira um personagem. Em 2019, ela veio ao Brasil para dois shows em São Paulo, um para o Lollapalooza e outro para um evento ligado ao festival. N ato inicial da apresentação, Anne imitava uma boneca enquanto tocava e cantava as músicas, característica do Masseduction, disco anterior ao Daddy’s home, que motivou a turnê.
Entretanto, St. Vincent não se perdeu nessa nova persona. As músicas do novo trabalho ainda têm a assinatura que marca carreira da artista. Os sintetizadores estão presentes, assim como o forte apelo sedutor na forma de cantar. Dessa vez, a diferença é que o álbum tem um algo a mais, como um convite para o público conhecer um lado escondido da cantora e passear pela história de Anne Clark, despida da casca de St.Vincent.