ARTIGO

As pessoas acolhem Brasília

Neste 21 de abril, gostaria de celebrar não apenas a Brasília tombada, mas a Brasília completa, a mãe que acolhe seus mais de 2 milhões e 900 mil cidadãos, dos quais mais de 90% nem mora no Plano Piloto

As pessoas acolhem Brasília -  (crédito: kleber sales)
As pessoas acolhem Brasília - (crédito: kleber sales)

Profa. Dra. Gabriela Tenório, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB

 

"Brasília é uma mãe que acolhe a gente", me disse uma empregada doméstica, baiana, moradora da Ceilândia, que diariamente pegava o ônibus para ir de sua casa ao Plano Piloto. Essa mulher, numa pesquisa que fiz sobre a imagem do centro de Brasília, ao ser perguntada se sentia alguma emoção específica no trajeto casa/trabalho, respondeu: "Sim. Quando o ônibus faz a curva para entrar na outra pista. Nunca contei para ninguém, para ninguém achar que eu sou boba, mas outro dia comentei com uma senhora, que disse que sentia a mesma coisa". Ela se referia à curva que o ônibus faz ao sair da Rodoviária, no sentido da Esplanada, para depois subir o Eixo Monumental. Justamente o trecho que Lucio Costa descreve no item 10 do Relatório do Plano Piloto:

"O sistema de mão única obriga os ônibus na saída a uma volta, num ou noutro sentido, fora da área coberta pela plataforma, o que permite ao viajante uma última vista do Eixo Monumental da cidade antes de entrar no eixo rodoviário-residencial — despedida psicologicamente desejável."

Fiquei admiradíssima. A intenção — materializada — do arquiteto criador da cidade, descrita em um documento singelo e sucinto, foi percebida anos depois por uma pessoa que não terminou o ensino fundamental e nunca leu o Relatório do Plano Piloto.

Minha entrevistada é uma das milhões de pessoas que vivem em Brasília, que se encantam com o Plano Piloto, que constroem aqui a sua história. A cidade a acolheu, mas apenas a 30km de onde ela conseguiu trabalho. Ela não reclama. "Brasília é minha cidade, Ceilândia é meu lugar", disse, confirmando o que é preciso reconhecer: Brasília é todo o Distrito Federal.

O desenho da cidade modernista, que traz estranhamento e deslumbre, que faz brilhar os olhos de seus cidadãos com sua paisagem urbana marcante, seus ícones arquitetônicos, seu verde em profusão, seu horizonte de 360 graus, seus vazios, também traz embutidas características desfavoráveis a uma série de outros aspectos, que acabaram sendo agravadas por decisões políticas tomadas ao longo de sua história, desde a criação das primeiras cidades satélites. A segregação sócioespacial, as grandes distâncias, a especialização de setores e bairros, a dependência do centro, o imenso favorecimento ao automóvel, o descaso com o pedestre, tudo isso se agravou com o modelo de expansão urbana e de provimento de moradia adotados ao longo dos anos.

Mas... como a arquitetura é um campo de possibilidades, a gente sabe que o desenho da cidade pode dificultar ou facilitar o nosso viver urbano, o nosso ir-e-vir, mas não os determina. Assim, cada cidadão toca sua vida da forma que lhe é possível, superando as dificuldades, tentando tornar a cidade um pouco sua, esforçando-se para conquistar nela seu lugar, criar seus laços, exercer suas liberdades.

É injusto, no entanto, deixar a superação apenas por conta das pessoas: a cidade precisa parar de dificultar e começar a facilitar. Ela é perfeitamente capaz de incorporar princípios de desenho para eliminar barreiras, diminuir distâncias, misturar os usos e as gentes, favorecer infinitamente mais os pedestres, os ciclistas e os usuários de transporte público, sem que nada disso suprima ou minimize os atributos que a fazem tão indelével.

Neste 21 de abril, gostaria de celebrar não apenas a Brasília tombada, patrimônio cultural da humanidade, mas a Brasília abrangente, completa, a mãe que acolhe seus mais de 2 milhões e 900 mil cidadãos, dos quais mais de 90% nem mora no Plano Piloto, e desejar que ela se torne cada ano mais justa, bela e generosa.

Por Opinião
postado em 21/04/2025 06:00
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