
A tranquilidade e a segurança deram lugar à apreensão na noite da última quinta-feira (27/3) após um adolescente de 15 anos ser esfaqueado ao lado do Parque de Águas Claras. A tentativa de latrocínio ocorreu na Quadra 107, e a violência crescente na região tem gerado insegurança entre a população da cidade.
A violência na região tem impactado a rotina dos moradores, que tem evitado andar sozinhos à noite e cobram melhorias na segurança pública. Ana Agnes Gomes dos Santos, 26 anos, arquiteta, afirmou que se sente insegura ao caminhar à noite por conta da falta de iluminação pública em algumas áreas do bairro. "Prefiro sair pela manhã ou no final da tarde, quando há mais movimento. Sempre evito andar desacompanhada em determinados horários e locais", destacou ao Correio. "Acho que a segurança melhoraria com mais iluminação, rondas policiais e vigilância pública em pontos estratégicos", sugere.
Depois do ataque ao lado do Parque de Águas Claras, o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) foi acionado e encontrou o adolescente com uma perfuração de arma branca na região do abdômen. Um militar da corporação, que estava de folga, prestou os primeiros socorros até a chegada da equipe de atendimento. O jovem, que teve a identidade preservada, foi encaminhado consciente ao Hospital Regional de Ceilândia (HRC), onde passou por avaliação médica. O ferimento não atingiu órgãos vitais e ele não precisará de cirurgia.
Paulo Aires, 47, militar, e Rafaela Aires, 42, servidora pública, avistaram do alto do prédio onde moram a movimentação do socorro após o crime. "Escutamos o barulho da ambulância e fomos na janela para ver. Vimos os bombeiros atendendo o jovem esfaqueado bem em frente à nossa janela. Hoje (ontem), ao sair de manhã, vimos a calçada manchada de sangue, e isso nos dá uma sensação horrível de insegurança. Ficamos nos sentido mal a noite inteira", conta Paulo. A servidora pública conta que tem preferido realizar as atividades físicas sempre no período matinal para se sentir mais segura.
Aline Ornelas, 30 anos, moradora da região desde 2001, diz que evita frequentar o parque à noite devido ao relato frequente de assaltos. "Várias amigas contaram que foram roubadas nas redondezas. Nunca passei por isso, mas esses crimes me deixam bastante receosa", relatou. Ela contou que ficou surpresa com o jovem que foi esfaqueado. "Depois desse ocorrido estou me sentindo com mais medo e insegura de caminhar nesse trajeto que eu considerava seguro", acrescentou.
Outro crime
A violência envolvendo armas brancas também marcou outro crime grave na mesma noite, em Ceilândia. Uma mulher foi esfaqueada pelo marido após uma discussão. Segundo informações da Polícia Militar (PMDF), o homem, de 46 anos, desferiu quatro facadas contra a esposa. Ela foi socorrida e encaminhada ao Hospital Regional de Ceilândia, onde passou por cirurgia e segue em estado estável. O agressor da mulher fugiu e, até o momento do fechamento dessa matéria, não foi localizado.
Penas brandas
O uso de armas brancas como facas e outros objetos cortantes, segundo o especialista internacional em segurança Leonardo Sant'Anna, 54, está ligado a graves atrasos na legislação e na fiscalização. "Há uma permissividade na lei e em outras orientações destinadas a forças de segurança, que muitas vezes impedem abordagens preventivas. Isso facilita que pessoas transitem com armas brancas sem receio de punição. É um comportamento criminoso que se perpetua porque há a sensação de impunidade e de que as autoridades não vão agir de maneira eficaz", explica.
Além da facilidade de acesso a esses objetos, ele destaca que a não aceitação, de instâncias jurídicas do Estado, de protocolos mais rígidos para revistas e abordagens pode contribuir para a impunidade. "A legislação precisa ser ajustada para dar respaldo às forças de segurança, garantindo que possam atuar preventivamente nesses casos. A forma como o cidadão é repetidamente afetado deve ser a mola propulsora das alterações legais que o protegerão, e não o pensamento individual e restrito de quem é detentor de posições públicas que, aparentemente, estão muito distanciadas da realidade social", acrescenta Sant'Anna.
De acordo com o Art. 129-A, a pena para o porte de arma branca com o objetivo de cometer crime é de detenção de um a seis meses. Segundo o especialista, com esse fenômeno de casos envolvendo facas, ainda são muito brandas e precisam ser aumentadas.
Queda
A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) informou que os crimes contra o patrimônio seguem em queda no DF. Segundo o órgão, houve uma redução de 14,9% nesses crimes no comparativo entre os últimos 12 meses de 2024 e 2023.
A SSP-DF também ressalta que tem investido em tecnologia, capacitação das forças de segurança e análise de dados criminais para otimizar o policiamento e reforçar a segurança pública em todo o Distrito Federal.