HISTÓRIA DE BRASÍLIA

Crônica da Cidade: Brasília, um destino para Aldo Paviani

Leitor ávido e observador, está por dentro da produção do Correio tanto no impresso quanto na internet e comentava as respostas com exemplos de dados atualizados que havia captado em reportagens publicadas nas últimas semanas

Aldo Paviani -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
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Aldo Paviani - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Se alguém merece o título de cidadão honorário de Brasília, essa pessoa é Aldo Paviani. Tive a oportunidade de entrevistá-lo por duas vezes. A primeira, ainda durante a faculdade. Ao lado de uma colega de curso, produzia reportagem para a revista Campus Repórter, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), se não me falha a memória. Minha função, na oportunidade, era a de fotografar o professor, especialista na capital federal. Um mergulho mais profundo na minha biblioteca e nos arquivos digitais seria necessário para ter certeza de datas e temas debatidos, pois minha memória não alcança o mesmo grau de precisão da do professor emérito. Aldo nos recebeu com generosidade e atenção em sua casa.

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Anos mais tarde — ouso dizer que mais de uma década depois —-, veio o reencontro. Dessa vez, eu já estava mais acostumada a ler as impressões e análises do geógrafo sobre o desenvolvimento urbano de Brasília. Aldo sempre foi fonte infalível dos repórteres de Cidades do Correio. Sua história havia sido contada também, pelo menos um par de vezes, no jornal. Decidi enfrentar o desafio de fazê-lo novamente para encontrar partes talvez inéditas para o público. Meu objetivo era conhecer melhor a trajetória do professor desde sua primeira atuação na área, em Porto Alegre.

A conversa com Aldo me presenteou com muito mais. Leitor ávido e observador, está por dentro da produção do Correio tanto no impresso quanto na internet e comentava as respostas com exemplos de dados atualizados que havia captado em reportagens publicadas nas últimas semanas. Mais uma vez, ele abriu as portas da própria casa e da memória para compartilhar lembranças e conhecimentos como poucos. Com a parceria do fotógrafo Minervino Júnior e do repórter Cadu Ibarra, responsável pelos vídeos inéditos que vêm por aí, saiu mais um perfil que tive o orgulho de escrever.

A história de amor e de parceria com a professora e também pioneira Therezinha Isaia Paviani dominou boa parte da entrevista. Ainda hoje, 10 anos passados da morte da companheira, é visível a admiração que guarda por ela. Um dos episódios que confidenciou, inclusive, envolve uma quase demissão, no período de ditadura militar, que não aconteceu graças à companheira. O reitor admirava o trabalho da bióloga e sabia que a saída de Aldo significaria o pedido de demissão dela, o que comprometeria a expansão do Instituto de Biologia à época.

O casal pioneiro por pouco não deixou Brasília. Aldo contou que uma lei permitiu que escolhessem a capital por "destino". Um desfecho que, observado em perspectiva agora, dá um tom poético à trajetória do professor. Ele se preocupou com a expansão do Distrito Federal e com a população que se firmava na periferia da cidade desde os primeiros anos.

Atividade obrigatória em suas aulas eram as saídas de campo para conhecer essas regiões. Um choque de realidade que muitos estudantes encararam com desdém. Quem soube aproveitar, porém, certamente carregou consigo os melhores ensinamentos que a universidade poderia legar. Brasília foi o destino de Aldo Paviani, e ele retribui diariamente, digno de reverências e aplausos.

Mariana Niederauer
postado em 27/03/2025 12:01 / atualizado em 27/03/2025 12:10