
A pandemia de covid-19 trouxe medo, dúvidas, angústias e incertezas tanto para quem teve a doença quanto para quem perdeu entes queridos. O vírus levou muita gente, despedaçou famílias e deixou sequelas físicas e mentais. No Distrito Federal, foram registrados mais de 12 mil óbitos, segundo o Ministério da Saúde. Como o resto do país, Brasília ficou deserta. O Correio conversou com três brasilienses que tiveram covid-19, passaram por momentos difíceis, se curaram e começaram a enxergar a vida de maneira diferente depois de superar a doença.
A servidora pública Andréa Martins, 48 anos, escreveu um e-mail de despedida para o marido e passou todas as senhas pessoais para ele, pois teve certeza de que ia morrer. Ela teve covid-19 em fevereiro de 2021, quando não havia vacina disponível para adultos, e ficou sete dias internada em estado grave. "Meus pais tiveram covid e foram internados primeiro. Eu acabei pegando deles e fui para o hospital também. Como eu era grupo de risco, por ser obesa, asmática e diabética, fiquei muito angustiada e realmente achei que ia morrer. Tive muita falta de ar", relata. "Eu já estava isolada havia um tempo, cuidando dos meus pais, depois fiquei mais 14 dias longe do meu marido e dos meus filhos, sozinha, e essa foi a pior parte para mim", lembra.
Andréa ficou três dias com a oxigenação muito baixa e quase foi entubada. "O meu maior medo era ser entubada, porque eu sabia que poucas pessoas que eram entubadas se curavam. A médica chegou a falar que, se eu não melhorasse, precisaria entubar. Foi o auge da minha angústia. Passei todas as minhas senhas para o meu marido, transferi todo o meu dinheiro para ele e escrevi um e-mail me despedindo dele e dos meus filhos", conta ela, que tem dois filhos, hoje com 16 e 8 anos. "O pior da covid é a sensação de solidão por conta do isolamento, a sensação de que eu podia morrer sozinha", completa.
Após sete dias internada e mais sete isolada, Andréa recebeu alta. "Graças a Deus, meus pais também ficaram bem, estão vivos e com saúde. Eu fiquei um bom tempo fazendo acompanhamento com pneumologista por causa da asma, minha pressão aumentou, acabei ficando hipertensa, mas hoje estou saudável e bem", conta.
Luta pela cura
"Você é o paciente mais grave que tenho aqui", disse o médico do servidor púbico Fernando Ramos, 45 anos, que chegou a ficar com 75% do pulmão comprometido por causa da covid-19. Ele foi infectado pelo vírus em fevereiro de 2021 e internado uma semana antes de anunciarem que não havia mais leitos públicos e privados de internação para covid em Brasília. "Fiquei quase um mês internado, 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), e cheguei a melhorar e ir para o quarto. Tive alta, fui para casa e, depois de uma semana, fui internado de novo para fazer uma cirurgia de emergência. Colocaram um dreno no meu pulmão, para tirar umas bolhas de oxigênio que vazaram para a caixa torácica por conta da covid", descreve.

Como sequela, Fernando ficou com a capacidade pulmonar comprometida. "Mesmo depois de muita fisioterapia, me sentia cansado muito rápido. Eu pratico jiu-jitsu há 15 anos, três vezes por semana, e senti muito nitidamente a minha capacidade pulmonar reduzida. Mas, graças a Deus, com o tempo, fui recuperando", conta. "De início, também tive queda capilar e falhas na memória, mas hoje em dia as sequelas não existem mais", acrescenta.
A resiliência foi um dos aprendizados que o servidor público teve após a doença. "Hoje, toda vez que passo por um problema muito grande na minha vida, me lembro de que superei a covid-19. Então, vou conseguir vencer outros desafios também. Passei a dar valor a coisas simples, como o barulho da água. Fiquei muito tempo sem autonomia, não podia me levantar da cama quando estava internado, as enfermeiras que cuidavam da minha higienização. A primeira vez que tomei banho sozinho após a covid foi muito especial. Agucei minha percepção de ouvir o barulho da água", recorda-se. "Sem dúvida, hoje enxergo a vida de outra forma", ressalta.
Fernando conta que a vontade de viver o ajudou a superar a covid-19. "Eu fiquei muito deprimido, achei que ia morrer de fato. Passei madrugadas rezando e pedindo para não morrer. Eu me esforcei muito. Forçava para comer, mesmo enjoado por causa das medicações, e me esforçava como ninguém na fisioterapia, mesmo cansado. Minha vontade de viver foi o que me fez sair dessa", finaliza.

O infectologista e consultor médico do Sabin Diagnóstico e Saúde Marcelo Cordeiro conta que, no início, os médicos não sabiam como tratar a doença, pois sabia-se muito pouco sobre a covid-19. "As UTIs ficaram superlotadas, e médicos precisaram decidir quem receberia suporte ventilatório, em locais onde os recursos eram escassos. A alta mortalidade da covid foi devastadora para as equipes de saúde", lamenta.
Segundo Cordeiro, por ter uma forma de ataque bastante agressiva, o vírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, entra no corpo pelas vias respiratórias e se liga a receptores encontrados em células do pulmão, coração, vasos sanguíneos, rins e outros órgãos. "A infecção desencadeia uma resposta inflamatória, que pode variar de leve a grave. Muitas pessoas que sobreviveram à doença ficaram com sequelas, como fadiga crônica, dificuldade respiratória persistente e problemas neurológicos", explica.
"Achei que não ia sobreviver"
A recepcionista Bruna Rodrigues, 23 anos, teve covid-19 mesmo após tomar duas doses da vacina. "Em alguns momentos, pensei que não iria sobreviver, porque os sintomas eram muito fortes. A sensação que dava era que eu não ia me recuperar tão cedo", conta. "Eu ouvia muitas histórias de pessoas que estavam estáveis e, do nada, a situação se agravava. Então, fiquei bem impressionada. Passei todo o meu período de isolamento em casa. Ficava muito preocupada em não contaminar minha família", diz.

Pelo fato de a doença ser contagiosa, ela passou a pensar mais no próximo. "Eu sempre pensei muito no coletivo, mas depois da pandemia e de ter covid, passei a pensar ainda mais. Em como é importante termos esse cuidado enquanto sociedade, pensar no próximo também. Ter mais consideração pelo outro, cuidar do coletivo e não pensar só em si mesmo", compartilha.
"Muitas pessoas não usavam máscaras, frequentavam festas clandestinas e ignoravam o distanciamento social, favorecendo a disseminação do vírus. Fake news sobre tratamentos ineficazes eram disseminadas. A hesitação vacinal fez com que muitas pessoas adiassem ou recusassem a imunização. Muitos profissionais de saúde foram perseguidos, ameaçados e atacados apenas por defenderem a ciência e orientarem corretamente a população", descreve o médico Marcelo Cordeiro.
"A pandemia de covid-19 foi um dos eventos mais marcantes da história recente. Mudou o mundo de muitas formas, acelerando a ciência, revelando fragilidades nos sistemas de saúde e nos lembrando do valor da solidariedade", ressalta.
De acordo com o infectologista, cinco anos depois, é essencial honrar as vidas perdidas e garantir que estejamos preparados para proteger as próximas gerações. "A próxima pandemia não é uma questão de 'se', mas de 'quando'. Somente com investimentos contínuos e ampliados em pesquisa seremos capazes de mitigar as consequências", alerta.