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Sorotipo 3 da dengue chega a Goiás e preocupa o DF

O DENV-3 é um dos mais virulentos e tem maior potencial de causar formas graves da doença em pessoas acometidas pelo vírus anteriormente. Apesar da redução do número de casos, especialistas alertam que é preciso intensificar as medidas preventivas

Jonas Brant, professor da Universidade de Brasília (UnB), comentou que o Distrito Federal está em uma situação melhor em relação à dengue do que no ano passado
       -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
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Jonas Brant, professor da Universidade de Brasília (UnB), comentou que o Distrito Federal está em uma situação melhor em relação à dengue do que no ano passado - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

A ocorrência do sorotipo 3 da dengue (DENV-3) em Goiás — que pode agravar o quadro de pessoas acometidas pelo vírus anteriormente — preocupou os brasilienses com a possibilidade de que ele chegue também à capital federal. Só neste mês, o estado vizinho registrou mil casos e sete óbitos por dengue. No DF, o governo garantiu a tomada de medidas preventivas e a antecipação de ações de combate à doença. No primeiro painel do CB.Debate Dengue: uma luta de todos, especialistas da área da saúde discutiram sobre os sorotipos da doença e os riscos de epidemia no país.

Jonas Brant, professor da Universidade de Brasília (UnB), comentou que o Distrito Federal está em uma situação melhor em relação à dengue do que no ano passado, quando a capital ultrapassou 400 mil casos. No entanto, o DF ainda apresenta o quarto maior número de casos desde 2010. Segundo o especialista, a redução pode ter acontecido por fatores como a menor quantidade de chuvas e temperaturas mais baixas, mas o principal fator seria a imunidade adquirida pela parcela da população que foi infectada pela dengue em 2024.

"Há que se discutir o quanto o efeito dessa imunidade gerada pela epidemia anterior resulta em uma situação um pouco mais confortável este ano. Chama a atenção que a gente está com o quarto maior número de casos para este momento do ano, desde 2010. Perto da epidemia que vivenciamos ano passado, está muito melhor, mas não é uma situação para descansar e ficar tranquilo", afirmou o professor.

Apesar da queda nos casos de dengue, ele alerta que a chikungunya é uma doença crescente, e tem no Centro-Oeste a maior incidência do país. Apesar de ambas as doenças serem transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, os modos de combatê-las exigem diferentes métodos, o que pode ser um empecilho caso o novo vírus siga crescendo. "A gente tem desafios com a dengue, mas a chikungunya traz um desafio, que é estruturar uma rede de fisioterapia e uma rede de reumatologia imensas, que a gente não tem", explicou Brant.

Comparação

O infectologista André Bon, do Exame Medicina Diagnóstica, lembrou que, nos hospitais em que atuou no ano passado, a epidemia de dengue teve proporções semelhantes às do auge da pandemia de covid-19, especialmente em relação à busca por atendimento. Para ele, a crise enfrentada na capital federal foi uma das mais severas do país. "Parecia covid, com uma quantidade enorme de pacientes, grande demanda e pressão sobre os serviços de saúde, muito semelhante ao que vivemos na pandemia", destacou.

Bon ressaltou que, muitas vezes, teve a impressão de que as pessoas encaravam a dengue como uma doença "comum", sem a devida atenção ao momento crítico enfrentado nas redes pública e privada. Para ele, a principal preocupação este ano é justamente garantir uma maior compreensão, tanto da população quanto do governo, sobre a gravidade da doença.

 30/01/2025 Ed Alves/CB/DA Press. CB Debate, Dengue uma luta de todos.André Bon
30/01/2025 Ed Alves/CB/DA Press. CB Debate, Dengue uma luta de todos.André Bon (foto: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)

"É preciso estar preparado para o aumento rápido de casos, algo característico da dengue. Se isso acontecer, é fundamental que haja uma estrutura pronta para responder à altura, com profissionais capacitados e recursos adequados", alertou.

O especialista também destacou a importância da conscientização sobre a doença e seus sinais de alerta. "Muitas pessoas vão a óbito por dificuldade em identificar a gravidade do quadro, por desvalorização dos sintomas ou por hidratação inadequada. A dengue mata, talvez não com a mesma intensidade de outras grandes epidemias, mas mata", enfatizou.

Segundo Bon, a triagem hospitalar, de modo geral, não está preparada para lidar com a dengue. "Os sistemas de classificação de risco utilizam escores que nem sempre são adequados para a doença. Por isso, é essencial ter equipes bem treinadas e garantir uma resposta rápida, com a disponibilização de leitos para hidratação", concluiu.

Estratégia

O secretário adjunto de Vigilância em Saúde e Ambiente, Rivaldo Venâncio, anunciou que as regiões administrativas de Planaltina, São Sebastião, Paranoá, Itapoã, Arapoanga, Estrutural, Recanto das Emas, Fercal e Gama serão as primeiras do DF a receberem o método Wolbachia.

Essa estratégia consiste na introdução da bactéria Wolbachia em populações do Aedes aegypti, impedindo a multiplicação do vírus dentro do mosquito e, consequentemente, reduzindo sua capacidade de transmissão para os seres humanos. Presente naturalmente em diversos insetos, a bactéria não representa risco à saúde humana nem ao meio ambiente. Com o tempo, os mosquitos infectados com Wolbachia se reproduzem e disseminam a bactéria na população local, tornando-se uma solução autossustentável para o controle da dengue e outras arboviroses.

 30/01/2025 Ed Alves/CB/DA Press. CB Debate, Dengue uma luta de todos.Rivaldo Venancio - SEc. Adjunto de vigilencia em saude e ambiente
30/01/2025 Ed Alves/CB/DA Press. CB Debate, Dengue uma luta de todos.Rivaldo Venancio - SEc. Adjunto de vigilencia em saude e ambiente (foto: Ed Alves/CB/DA Press)

Venâncio também abordou a questão dos sorotipos da dengue. Segundo ele, embora houvesse a hipótese de que o sorotipo três da doença pudesse ser mais grave, na prática, a severidade da infecção está mais relacionada às características individuais do paciente do que ao sorotipo em si. "Algumas condições preexistentes aumentam o risco de complicações. Pessoas com doenças crônicas que afetam a circulação têm maior propensão a desenvolver quadros graves. Além disso, indivíduos com respostas imunológicas exacerbadas — como aqueles com alergias severas, bronquite, asma ou doenças autoimunes — podem apresentar sintomas mais intensos devido à desregulação da permeabilidade vascular", explicou.

O secretário reforçou a importância de evitar a automedicação e buscar atendimento médico aos primeiros sintomas. "Isso é crucial porque temos observado que muitos pacientes, com evolução grave da doença — incluindo óbitos —, demoraram a procurar assistência. Quanto mais cedo a pessoa recebe atendimento, maiores são as chances de recuperação", concluiu.

Alerta

Fabiano dos Anjos, subsecretário de Vigilância à Saúde (SVS) da Secretaria de Saúde do DF, usou o espaço do debate para alertar aos cidadãos sobre ações de combate à dengue. O subsecretário explicou sobre os quatro aspectos da doença alinhados ao comportamento humano: vírus, mosquito, pessoas e ambientes. "Quando pensamos no aspecto do mosquito, falamos do elo mais fraco, enquanto ele está na fase aquática. Para isso, temos várias tecnologias que nos auxiliam. Saímos de uma era quase de pedra lascada de registro em papel para a instalação de aplicativos com os quais acompanhamos, em tempo real, o cenário do DF", afirmou.

 30/01/2025 Ed Alves/CB/DA Press. CB Debate, Dengue uma luta de todos. Fabiano dos Anjos
30/01/2025 Ed Alves/CB/DA Press. CB Debate, Dengue uma luta de todos. Fabiano dos Anjos (foto: Ed Alves/CB/DA Press)

Segundo Fabiano, embora o trabalho esteja atrelado às tecnologias, elas se tornam estratégias complementares e não impactam nas ações manuais, como evitar deixar água parada e descartar o lixo corretamente. "Não é culpabilização da população. Estamos construindo um processo de educação e, sem a participação da comunidade, nenhum esforço governamental vai combater esse mosquito", disse.

*Estagiário sob a supervisão de Eduardo Pinho

 

Frases

Jonas Brant, professor da Universidade de Brasília (UnB): "Perto da epidemia que vivenciamos no ano passado, está muito melhor, mas não é uma situação para descansar e ficar tranquilo"

Infectologista André Bon: "É preciso estar preparado para o aumento rápido de casos, algo característico da dengue. Se acontecer, é fundamental que haja uma estrutura pronta para responder à altura, com profissionais capacitados e recursos adequados"

Secretário adjunto de Vigilância em Saúde e Ambiente, Rivaldo Venâncio: "Algumas condições preexistentes aumentam o risco de complicações. Pessoas com doenças crônicas que afetam a circulação têm maior propensão a desenvolver quadros graves"

Fabiano dos Anjos, subsecretário de Vigilância à Saúde (SVS): "Não é culpabilização da população. Estamos construindo um processo de educação e sem a participação da comunidade nenhum esforço governamental vai combater esse mosquito"

  • O secretário adjunto de Vigilância em Saúde e Ambiente, Rivaldo Venâncio, anunciou as regiões administrativas que serão as primeiras do DF a receberem o método Wolbachia
    O secretário adjunto de Vigilância em Saúde e Ambiente, Rivaldo Venâncio, anunciou as regiões administrativas que serão as primeiras do DF a receberem o método Wolbachia Foto: Ed Alves/CB/DA Press
  • Fabiano dos Anjos, subsecretário de Vigilância à Saúde (SVS) da Secretaria de Saúde do DF, usou o espaço do debate para alertar aos cidadãos sobre ações de combate à dengue
    Fabiano dos Anjos, subsecretário de Vigilância à Saúde (SVS) da Secretaria de Saúde do DF, usou o espaço do debate para alertar aos cidadãos sobre ações de combate à dengue Foto: Ed Alves/CB/DA Press
  • O infectologista André Bon, do Exame Medicina Diagnóstica, lembrou que, nos hospitais em que atuou no ano passado, a epidemia de dengue teve proporções semelhantes às do auge da pandemia de covid-19
    O infectologista André Bon, do Exame Medicina Diagnóstica, lembrou que, nos hospitais em que atuou no ano passado, a epidemia de dengue teve proporções semelhantes às do auge da pandemia de covid-19 Foto: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press
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Pablo Giovanni
postado em 31/01/2025 03:15