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Início Curiosidades

Pesquisadores despejaram cerca de sessenta e dois mil litros de solução de soda cáustica no Golfo do Maine em agosto de 2025, no primeiro teste em mar aberto licenciado nos Estados Unidos para fazer o oceano absorver mais carbono, e o resultado mais importante não foi o carbono capturado

Por João Victor
11/09/2026
Em Curiosidades
Mancha rosa se abre atrás do casco de um barco de pesquisa em mar aberto

Mancha rosa se abre atrás do casco de um barco de pesquisa em mar aberto. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Um tripulante de barco de pesquisa passa a tarde de 13 de agosto de 2025 debruçado na amurada, olhando uma mancha rosa que se abre devagar atrás do casco no Golfo do Maine, e anota no caderno a hora em que a borda dela some. Ninguém precisa acreditar no tripulante, que inventei para abrir este texto. A mancha rosa existiu, tinha cerca de 800 metros de diâmetro e foi perseguida por instrumentos durante dias.

Jogar solução alcalina no mar para absorver carbono da atmosfera é uma proposta antiga, batizada de alcalinização oceânica, e a química que a sustenta cabe numa aula de ensino médio. O que nunca tinha sido feito em mar aberto, sob licença de um órgão ambiental, era medir o efeito com o oceano de verdade em volta, com onda, corrente e vento.

Foi isso que o projeto LOC-NESS, do Woods Hole Oceanographic Institution, fez naquela semana. E o resultado que mais interessa não é a quantidade de gás retirada do ar.

Por que jogar solução alcalina no mar faz a água puxar mais carbono?

Água do mar não é um líquido neutro: é um tampão químico com carbono dissolvido em três formas, gás carbônico, bicarbonato e carbonato. Quando entra hidróxido de sódio, o equilíbrio se desloca. O gás carbônico dissolvido vira bicarbonato, a pressão parcial de CO2 na água despenca e o oceano passa a puxar gás da atmosfera até reencontrar o ponto de equilíbrio.

O carbono que entra por esse caminho não fica na forma de gás pronto para escapar de novo. Fica como bicarbonato, a mesma forma em que o oceano guarda a maior parte do seu carbono há milênios. Como efeito secundário, o pH local sobe, o que caminha na direção oposta da acidificação que a queima de combustível fóssil vem provocando. A descrição química está na página de perguntas frequentes do projeto, mantida pelo grupo do Woods Hole que tocou o experimento.

Quanto de soda cáustica coube no primeiro ensaio licenciado em mar aberto?

Amostrador com garrafas cinzentas sendo içado pela amurada do navio
Amostrador com garrafas cinzentas sendo içado pela amurada do navio. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O plano aprovado previa até 50 toneladas métricas de hidróxido de sódio, adicionadas como solução a 50% em água doce, num total de 16.500 galões, ou algo perto de 62 mil litros. O número está no material do próprio LOC-NESS, que também descreve o local: águas federais ao largo de Massachusetts, na Bacia de Wilkinson, a cerca de 61 quilômetros da costa de Cape Cod, com a liberação limitada aos 5 a 10 metros superiores da coluna d’água.

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A liberação durou cerca de seis horas e cobriu perto de 1 quilômetro quadrado. A licença veio da agência ambiental americana, a EPA, em 23 de abril de 2025, e trazia trava operacional: quando os sensores de pH chegaram ao limite autorizado, a vazão de hidróxido foi cortada pela metade no meio da operação, conforme o relato do ensaio publicado pela revista setorial National Fisherman. Dois navios trabalharam juntos, um despejando e outro coletando dados.

Onde a medição virou a parte difícil do experimento?

A conta de laboratório é fácil. Cada tonelada de hidróxido de sódio tem um potencial teórico de captura que se calcula no papel. O problema aparece quando a mancha tratada começa a se diluir, a se espalhar e a afundar, enquanto a troca de gás entre o ar e a água leva semanas ou meses para se completar. O gargalo dessa técnica não é química, é contabilidade.

Para não perder a mancha de vista, a equipe misturou rodamina WT, um corante fluorescente atóxico, à solução, e seguiu o rastro com instrumentos autônomos numa zona de monitoramento de 3.600 quilômetros quadrados. O truque é velho e já resolveu outros enigmas de percurso de água, como quando pesquisadores tingiram sumidouros no Kentucky para descobrir por onde a água corria debaixo da terra.

Nos quatro dias de acompanhamento contínuo, a estimativa de captura extra ficou entre 2 e 10 toneladas de CO2, segundo os resultados provisórios apresentados pela equipe no Ocean Sciences Meeting de 2026, em Glasgow, e relatados pela revista Chemistry World. Modelos sugerem que a mancha continue absorvendo depois disso, chegando à casa de 50 toneladas ao longo de um ano. Repare na largura do intervalo: o valor máximo é cinco vezes o mínimo. Essa incerteza é o resultado principal do ensaio, e não um defeito do relatório.

Como ficaram as bactérias, o plâncton e as larvas do trecho tratado?

A instituição divulgou em fevereiro de 2026 um balanço preliminar do monitoramento biológico, comparando a água tratada com a água de controle ao redor. Não apareceu diferença estatisticamente significativa em nenhum dos quatro grupos acompanhados.

  • Bactérias: a comunidade microbiana da mancha não se separou da comunidade da água vizinha no período medido.
  • Fitoplâncton: as algas que fazem fotossíntese na superfície, base da cadeia alimentar, não mostraram resposta detectável ao aumento de alcalinidade.
  • Zooplâncton: os pequenos animais que pastam o fitoplâncton, incluindo os copépodes típicos do Golfo do Maine, seguiram nas mesmas contagens.
  • Larvas: as formas jovens de peixe e de lagosta, o grupo que mais preocupava a pesca local, também não registraram efeito mensurável.

Ausência de efeito detectado em quatro dias, numa mancha, numa estação do ano e numa bacia não é o mesmo que ausência de efeito. Organismos que constroem concha e esqueleto de carbonato são justamente os que mais reagem a mudança de química da água, para bem e para mal, como se vê no caso das ostras que voltaram a formar recife na Flórida a partir de conchas descartadas por restaurantes. O comunicado com os números preliminares fala em uma publicação revisada por pares ainda por vir.

Qual regra vale no Brasil para quem quiser despejar alcalinizante no mar?

A moldura é internacional e antiga. O Brasil promulgou pelo Decreto 87.566, de 16 de setembro de 1982, a Convenção de Londres de 1972, que trata da prevenção da poluição marinha por alijamento de resíduos e outras matérias. A íntegra da convenção incorporada ao direito brasileiro está no repositório oficial de decretos da União.

O Artigo III define alijamento como todo despejo deliberado no mar, mas abre uma exceção que decide o assunto: não se enquadra como alijamento a colocação de matérias “para fins diferentes do seu próprio despejo”, desde que ela não contrarie os objetivos da convenção. É por essa porta estreita que os ensaios científicos de alcalinização passam no mundo inteiro, inclusive em águas jurisdicionais brasileiras. Quem for propor algo parecido aqui vai discutir primeiro se o material entra no mar como resíduo ou como instrumento de pesquisa.

O que convém lembrar sobre jogar solução alcalina no mar?

Ao topar com a manchete, separe as duas quantidades antes de qualquer coisa: quanto de alcalinizante entrou na água e quanto de gás carbônico saiu do ar. No ensaio do Golfo do Maine, a primeira é da ordem de dezenas de toneladas e a segunda, nos dias medidos, de unidades de toneladas. Exija sempre o intervalo, não o número do meio. Pergunte se o dado vem de artigo revisado por pares ou de apresentação em congresso, porque o ensaio de campo do LOC-NESS ainda está no segundo estágio. E leia “nenhum impacto mensurável” como o que a frase diz, um resultado de curto prazo e de escala pequena, não um atestado permanente.

O propósito deste texto é informativo. Ele reúne o material técnico divulgado pela instituição responsável pelo experimento, o comunicado de resultados preliminares de fevereiro de 2026, a cobertura especializada da apresentação em congresso e o decreto brasileiro que incorporou a Convenção de Londres. Nenhum artigo revisado por pares sobre esse ensaio de campo havia saído até o fechamento destas linhas, e é por isso que todo número aqui aparece com a origem colada.

Tags: carbonomeio ambienteoceanoWoods Hole
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