Dezoito dias após o último soldado dos Estados Unidos cruzar a fronteira com o
Kuweit e pôr fim a uma ocupação que durou quase nove anos, o Iraque voltou ontem a ser
assombrado pelo fantasma da violência sectária. Ao menos seis explosões em Bagdá e em Nassiriya,
300km a sudeste da capital, deixaram mais de 70 mortos e 104 feridos. Os ataques tiveram como
alvos principais os xiitas ; representados por 65% da população iraquiana. No atentado mais
violento, 45 peregrinos xiitas que caminhavam rumo à cidade sagrada de Kerbala morreram quando
um homem-bomba se explodiu dentro de um posto de controle da polícia de Al-Badha, uma região a
oeste de Nassiryia. Em Sadr City, bastião do clérigo xiita Muqtada Al-Sadr, uma
motocicleta-bomba e dois explosivos plantados à beira da estrada mataram pelo menos nove pessoas
e feriram 35. Segundo a tevê Al-Jazeera, duas explosões no bairro xiita de Kadhimiyah custaram a
vida de 15 civis.
O iraquiano Louay Bahry,
ex-professor de ciência política da Universidade de Bagdá, admite que esperava uma onda de
conflitos religiosos no Iraque, mas não com a intensidade dessas últimas semanas. Em 22 de
dezembro, várias explosões já haviam deixado 72 mortos na capital. ;Alguns grupos trabalham duro
para recriar uma atmosfera de desconfiança e animosidade entre os xiitas e os sunitas. Talvez
alguns elementos da Al-Qaeda ou do Partido Baath (de Saddam Hussein) estejam envolvidos;,
admitiu Bahry ao Correio, por telefone. No entanto, o analista ainda não vê elementos que
indiquem uma guerra sectária de grande magnitude no país. ;Ainda não chegamos a esse ponto.
Entre 2005 e 2006, xiitas e sunitas queimaram as casas uns de outros;,
exemplifica.
Para o norte-americano James Fearon, especialista em guerra civil e
cientista político da Universidade de Stanford, o Iraque assiste a uma escalada no combate
sectário de baixo nível. ;O potencial para o retorno para a violência de 2006 é menos provável,
graças à ;limpeza étnica; ocorrida naquela época em Bagdá e em outros locais;, explica ao
Correio. Ele acredita que alguns grupos sunitas jamais se acostumaram com os xiitas no poder.
Com a saída das tropas dos Estados Unidos, buscam recuperar o prestígio político e a autonomia
regional, auxiliados pela Al-Qaeda. ;O conhecimento e o medo do revanchismo sunita têm levado o
premiê Nuri Al-Maliki a perseguir os líderes sunitas. Isso favorece os ataques contra os
xiitas;, acrescenta Fearon. Al-Maliki chegou a pedir a prisão do vice-presidente, o sunita Tariq
Al-Hashemi, acusado de planejar atentados terroristas.
O receio de ser o próximo alvo
levou o engenheiro de comunicações Ali Al-Jashammi, 34 anos, a mudar radicalmente sua rotina.
Pela internet, ele contou à reportagem que diariamente faz uma rigorosa vistoria em seu carro,
antes de sair de casa, no bairro de Ad-Durah, em Bagdá. Também não permite que a mulher e os
filhos saiam sozinhos. Al-Jashammi vive em um raio de 20km a 30km de Kadhmiyah e de Sadr City e
não escutou os sons das explosões de ontem. ;Eu não abandonarei meu lar. Sou um crente e sei que
morrerei algum dia, além de ser um pouco otimista;, diz. Questionado se odeia os sunitas,
Al-Jashammi responde sem titubear: ;Muitos dos meus amigos são sunitas, não tenho problemas com
eles;.
Louay Bahry, ex-professor de ciência política
da Universidade de Bagdá, fala ao Correio sobre a onda de violência no Iraque