De todo o drama sofrido por ela, ter sido impedida de amamentar o quinto filho foi o mais marcante. ;Fiquei em depressão por não poder lhe dar de mamar;, descreve. Ao descobrir o vírus, Jaqueline assume ter perdido temporariamente o sentido da vida. ;Quando soube, foi o mesmo que receber uma facada. Vim para cá (a Fale), em dezembro de 2004, em busca de ajuda no tratamento e não conhecia ninguém na chácara;, lembra. Agora, Jaqueline se vê casada(2), rodeada de amigos, trabalhando como babá e ainda é colaboradora em um bazar feito pela entidade para arrecadar fundos para a manutenção das casas.
;Foi aqui que aprendi a conviver com a doença. Aqui, todos têm o mesmo problema e fui me acostumando com as normas, as regras. Hoje, dou palestras em escolas e não escondo de ninguém o fato de ser portadora do vírus;, conta. Na comunidade, as regras são claras. Eles não podem usar drogas nem bebidas alcoólicas. ;Muitos deles têm problemas com dependência e às vezes não conseguem ficar na casa porque estão muito ligados ao vício;, explica a presidenta e fundadora do abrigo, Jussara Santos Meguerian. Lá, todos têm vida normal. São donas de casa, babás, pedreiros, jardineiros, eletricistas. ;Quando alguém chega sem profissão, logo os outros lhe ensinam a fazer alguma coisa;, conta Jussara. Das 36 casas existentes na chácara, a maioria foi construída pelas mãos dos moradores de lá. E todas as reformas e melhorias também são feitas por eles.
Iniciativa
O sonho contínuo de uma igreja e uma praça em um cenário jamais visto intrigava Jussara Santos Meguerian. Durante anos, a imagem que aparecia na memória dela permanecia sem explicação. Na década de 1990, um problema novo assustava moradores de todas as cidades brasileiras. O contágio pelo vírus HIV causava pânico e preconceito nas pessoas. Os poucos tratamentos também não colaboraram. Os portadores não sobreviviam por muito tempo, devido às doenças oportunistas. De Brasília, Jussara Santos mudou-se para Uberlândia (MG), para acompanhar o marido, transferido. Na cidade mineira, ela teve de passar os primeiros dias em um hotel até que alugassem uma casa. ;Naquela manhã, ao abrir a janela do quarto, a imagem dos sonhos apareceu. Rezei e pedi a Deus que me mostrasse o significado daquilo. Ali, nasceu a Fale;, conta.
O sucesso da casa correu o país. ;Um dia, abri o jornal e vi que haviam espancado um portador de HIV no parque da cidade. Não podia deixar que fizessem isso com ele;, lembra a fundadora da casa, que nasceu em Brasília em 1995. ;Em pouco tempo, devido a uma espécie de propaganda silenciosa, tínhamos mais de 300 pessoas. No início, aceitávamos apenas portadores, mas tivemos que abranger para os filhos de pessoas com vírus que não eram portadores;, relata. ;Aqui, eles recebiam amor, carinho, ajuda no tratamento das doenças oportunistas, além de alimentos e um lar.; A instituição, atualmente, oferece mais que carinho e amor. Ela ensina a viver em sociedade. ;Formamos um grupo a cada quatro casas. Nesse grupo, há um líder. Se uma casa estiver desarrumada, todos devem ajudar a moradora a dar faxina. Senão, todo o grupo é punido por uma semana. É um exemplo bonito de solidariedade;, completa.
1- Direito do cidadão
A Constituição da República Federativa do Brasil, no artigo 196, garante que saúde é direito de todos e dever do Estado. No caso da Aids, isso significa direito à própria vida, com dignidade e acesso assegurado a um sistema de saúde pública eficiente.
2- Matrimônio espírita
A presidenta do abrigo, Jussara Santos Meguerian, celebra um casamento espírita na chácara para os casais apaixonados. Desde março de 2005, Jaqueline vive feliz com o auxiliar de serviços gerais Celso, 39.
DEPOIMENTO
A volta por cima
Eu nasci em Torres, Rio Grande do Sul, em 1967. Aos 18 anos, mudei-me para Florianópolis. Trabalhei como metalúrgico, tinha um salário até bom, mas não gostava de me sentir preso a um emprego, ter que bater ponto. Fui garçom por um tempo. Vivia numa loucura. Era usuário de cocaína injetável. Aos 21 anos, comecei a sentir uns sintomas diferentes. Durante oito meses, perdi o apetite, sentia algumas dores pelo corpo, cãimbra e insônia. Ao revelar o resultado do exame, fui desprezado pelos meus familiares. (...) Fiquei internado 18 dias à beira da morte. Na última noite, uma pergunta veio à minha cabeça: o que estou fazendo da minha vida? Vim para Brasília há seis anos para aprender a recomeçar a vida. Procurei a Fale. Mas ainda usava muitas drogas. Fui expulso várias vezes. Uma vez, a tia (nome carinhoso que dão a Jussara) descobriu que eu estava mandando um menino comprar merla pra mim e me expulsou. Fiquei um tempo fora e pedi para voltar. Conheci a Dalva. Ela era tudo que sempre pedi a Deus. Uma mulher boa com um filho. Eles vieram. Meu filho (enteado) tem oito anos. Nos divertimos juntos, passeamos de bicicleta. Deus foi muito generoso comigo. Hoje, parei com drogas e consigo fazer meu tratamento de maneira correta. Sofro muito com as injeções todas as segundas-feiras. Mas estou cada dia melhor. Hoje, tenho orgulho de ser coordenador do abrigo. Ganhei dignidade, família e respeito.
Ricardo Areze, 42 anos, coordenador do abrigo
Como ajudar
A Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale) precisa de colaboração para cuidar de todos os moradores. As doações podem ser entregues na Quadra 108, Chácara 11, no Recanto das Emas. Informações pelos telefones: 3331-3556 ou 3273-6249.