Athos Bulcão nasceu no Rio de Janeiro, mas trocou a capital carioca por Brasília, em 1958, e nunca mais saiu daqui. O artista deixou 261 obras de arte espalhadas pela cidade (em locais públicos e particulares), segundo levantamento inédito feito pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). São os azulejos em azul e branco que revestem a parede da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, na 307/308 Sul, os blocos de concreto que brincam com o sol na fachada do Teatro Nacional e as peças que alegram os banheiros do Parque da Cidade e as paredes frias da Rodoferroviária.
O descaso mais grave ocorreu com a demolição da antiga sede social do Clube do Congresso, na 902 Sul, que destruiu três obras ; dois painéis de azulejos que enfeitavam a sauna e outro com uma montagem com blocos de gesso em autorelevo que ficava no hall de entrada.
; Um museu a céu aberto
De 10 das principais obras do artista Athos Bulcão visitadas pelo Correio, apenas duas estão totalmente preservadas
Athos Bulcão fez de Brasília um museu a céu aberto. Ao integrar a arte com a arquitetura, optou por fazer trabalhos ao ar livre e colorir locais frequentados no cotidiano dos brasilienses. Apesar de acumular admiradores, o legado do artista clama por cuidados. Durante todo o dia de ontem, o Correio visitou 10 das obras do artista mais conhecidas na cidade. Dessas, quatro encontram-se em mau estado de conservação, duas não existem mais e dois painéis estão em processo de restauração. Apenas em dois locais ; no Salão Verde do Congresso Nacional e no Parque da Cidade;, os azulejos mantêm-se preservados.
[SAIBAMAIS];Gosto das obras do Athos Bulcão, as considero democráticas. Fico encantada com a ideia de deixá-las à vista, para qualquer um ter acesso;, define a engenheira Rosimar Fernandes de Mello, 51 anos, acostumada a fazer exercícios no Parque da Cidade. Os painéis montados ao redor das estações que abrigam os banheiros do parque aparecem entre as obras bem conservadas. A fachada principal da Rodoferroviária deixa à mostra a argamassa usada para prender os azulejos de Athos à parede. Algumas peças têm rachaduras e sujeira. No mezanino do prédio, há placas de metal fosco penduradas, dispostas em diferentes direções ; muitas delas amassadas, com acúmulo de poeira e teias de aranha.
A situação piora na mureta central do Mercado das Flores, na Asa Sul. O cinza original dos azulejos cedeu espaço a um verde-musgo, por conta da ação do tempo. Apesar do cuidado da administração do local e de floristas em lavar o painel, faltam pedaços de diversas peças, enquanto outras têm trincos. Maria Fausta Moura, 69 anos, trabalha por 13 horas numa floricultura, de onde avista os azulejos de Athos Bulcão. ;Acho lindo. Até que, pela idade, não está tão estragado. Mas, na verdade, o lugar todo precisa de reparação;, reconhece.
A agressão à obra do artista estende-se à Escola Classe 407 Norte. Embora sirva de tema para trabalhos escolares e receba visitas de estudantes de outras instituições, o painel de azulejos azuis e brancos perdeu a vivacidade das cores. Marcas de ferrugem, rachaduras e buracos podem ser avistados, além de vestígios de pichação e um desenho com giz de cera. ;Eu acho que está faltando um projeto de preservação da cidade como um todo. As pessoas precisam começar a pensar a respeito do legado patrimonial que é Brasília e que a gente tem que deixar para outras gerações;, diz a diretora executiva da Fundação Athos Bulcão, Valéria Cabral.
Falta manutenção
De acordo com Valéria, de uma maneira geral, as obras que ficam no interior de edifícios, públicos ou privados, estão em melhor estado. ;Cada um toma conta da sua com muito cuidado e carinho. No Congresso Nacional, na Escola Francesa, na Torre de TV, no Tribunal de Contas da União, tudo é bem cuidado;, exemplifica. ;O Teatro Nacional deveria ser tomado como uma lição, de uma obra grandiosa que nunca teve manutenção. Se o governo promovesse uma ação conjunta para fazer a restauração dos painéis, já que não existe manutenção, a gente seria mais feliz do que só consertar quando chega no estado do Teatro;, completa.
Um dos maiores detentores de obras do artista, o Congresso Nacional abriga um painel que se estende por dois andares ao longo do Senado e da Câmara dos Deputados. Considerado bem conservado, apesar de uma ou outra rachadura, atrai a atenção de quem entra no Salão Verde. ;A obra dele é fantástica, impressionante;, comenta o pernambucano Estevão Coimbra, 53 anos, em visita à capital com a mulher. ;Esses e outros trabalhos artísticos precisam de atenção do governo;, completa.
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